O Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin (CBPC) dá prosseguimento à série mensal de matérias que trarão ao público traduções inéditas de escritos de Pierre de Coubertin. De abril de 2025 a março de 2026, vários textos serão traduzidos para o português, resgatando o legado do fundador do Movimento Olímpico para as novas gerações de leitores e entusiastas do esporte.
Durante o mês de dezembro de 2025, uma série especial de três textos apresentará ao público o lado “natalino” de Coubertin, relacionado com os valores do esporte. O segundo texto da série especial é “LES DEUX SKIEURS“, publicado na Revue Olympique em dezembro de 1910.
OS DOIS ESQUIADORES
Conto de Natal
O bom velhinho fazia sua ronda anual e seguia, como de costume, à noite, da França para a Áustria atravessando a Suíça. Você sabe que o bom velhinho nunca pegou um trem na vida. Havia, contudo, um bem perto. Era por volta de Montbovon, onde a malha dos vales friburguesas se encontra com a do Oberland bernês. Os primeiros trens da manhã começavam a circular. Fazia um frio de rachar, mas o bom velhinho não se preocupa com a temperatura, sendo por definição insensível ao frio. De repente, o ruído de uma discussão acalorada chegou até ele; a princípio não prestou atenção, até que, atrás de um grande rochedo todo encimado por negros abetos, deu de cara com dois esquiadores que discutiam, falando os dois ao mesmo tempo, cada um evitando ouvir as respostas do outro. Um instante o bom velhinho parou, divertido, sem conseguir desvendar o motivo da briga. Finalmente descobriu. Era um conflito esportivo. Um dos esquiadores defendia o Jura, o outro o Oberland, e o primeiro se queixava amargamente da decepção que sofrera ao percorrer o país do segundo.
— No Jura, dizia ele, não há obstáculos; pode-se percorrer dez quilômetros em meio a uma paisagem das mais acidentadas sem encontrar uma única barreira. Colinas e vales se sucedem, salpicados de belas florestas. Em toda parte o tapete de neve se estende igual e liso. Ah! as horas embriagantes gastas a percorrer uma região assim sem nunca passar duas vezes pelo mesmo caminho. Enquanto nos vossos malditos vales, altos, estreitos, cheios de gargantas e desfiladeiros, não só abundam obstáculos naturais, como ainda imperam obstáculos artificiais. É impossível fazer trezentos metros sem bater numa vil barreira diante da qual é preciso virar breve. Além disso, declives de extrema inclinação descidos em menos tempo do que se diz e que depois se têm de subir penosamente para repetir a mesma descida. Mas isso é diversão de criança; não é prazer de homem! A beleza do esqui é constituir uma montaria sobre a qual, como num belo cavalo, se devoram quilômetros mudando sempre de ritmo. A grande graça de deixar-se deslizar a toda velocidade por uma ladeira íngreme.
— Grande graça! — replicou o outro. — Mas parece que ela é grande demais para você e que você não sabe tirar proveito. Essas encostas, amigo, você as trata como os cachos verdes da fábula… — E o duo recomeçava. O frio os vivificava. Aqueciam‑se a lançar e relançar os mesmos argumentos. Não havia razão para que aquilo terminasse.
O bom velhinho avançou e, dirigindo aos interlocutores um olhar malicioso, disse-lhes: — Não veem que podem discursar assim indefinidamente sem jamais se convencer? Vocês não falam a mesma linguagem, porque vejo que não pertencem à mesma geração. Você, homem do Jura, deve andar perto dos quarenta e, quando tinha vinte anos, o esqui mal era conhecido por aí. Começou tarde e adquiriu uma bela resistência de que se orgulha e que lhe dá prazer. Por isso evoca a memória apaixonada de longas excursões conduzidas pela sua fantasia através dos planaltos ondulados de seu país. Mas por que quer impedir este jovem de também se deleitar com as vertiginosas escorregadas que se apresentam a ele? E se ele tentar saltos audaciosos, paradas bruscas, essa maravilhosa acrobacia que os mestres escandinavos lhe ensinaram, se ele zombar dos obstáculos, rochedos ou barreiras que a natureza ou os homens lhe opõem, por que quereria você provar que sua prática não é um esporte? É, com certeza, e dos mais completos que a sua idade pode apreciar. Concorde então que existem duas maneiras diferentes de praticar o esqui e que cada um de vocês tem a sua, apropriada muito menos à natureza do terreno que habitam do que aos seus próprios meios. Pois, sem procurar muito, encontrar‑se‑ia na região de curvas graciosas inúmeras ocasiões de belas proezas, e a possibilidade de longas excursões não é, de modo algum, interditada na região dos picos escarpados. Vocês estão justamente em uma encruzilhada de onde vosso caminho de ferro — satânica invenção! — pode levar a ambos aonde desejam ir. Cessai vossa discussão e ponde‑vos a caminho, cada qual na direção do vosso prazer invernal.
Assim falou o bom velhinho e, reconhecendo a perfeita justeza de suas palavras, os dois esquiadores se renderam à sua boa e simples eloquência. Sorridentes, deram‑se as costas, convencidos de que, de fato, existem várias maneiras de usar o esqui, mas semelhantes no fato de serem todas saudáveis e encantadoras. E o bom velhinho, satisfeito por ter restabelecido ali um pouco de paz, precipitou‑se rumo à Áustria, onde muitas crianças que ainda acreditam nele aguardavam impacientes sua chegada.
Pierre de Coubetin.
In: Revue Olympique, 10ª année, dezembro de 1910, pp. 181-183.
Acompanhe o terceiro e último texto natalino de Coubertin no dia 18 de dezembro de 2025, aqui no site do Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin.
Imagem de capa: Fotografia de Coubertin quando criança, colorida digitalmente. Fotografia original de www.olympics.com
