Há exatos 100 anos, no dia 1º de janeiro de 1926, Pierre de Coubertin voltou-se para a Grécia Antiga, para os tempos de Homero, o lendário poeta grego, no texto LES ANNALES MÉDITERRANÉENNES, publicado na revista Le Feu. Em seu aniversário de 63 anos, Coubertin defendeu que três instituições uniam o helenismo: o Oráculo de Delfos, o Conselho Anfictiônico (uma antiga liga ou conselho de cidades-estado gregas que se reunia duas vezes por ano em locais sagrados para administrar os templos e arbitrar disputas entre os membros) e os Jogos Pan-Helênicos (Píticos, Nemeus, Ístmicos e Olímpicos) como festas religiosas que integravam esporte, honra e consciência coletiva:
A terceira das instituições de que falamos é a mais conhecida, mas de modo algum a mais bem compreendida. Trata-se dos grandes Jogos periódicos: os Jogos Ístmicos, Nemeus e Píticos, que se realizavam nas regiões de Corinto, de Nemeia, de Cressa, e sobretudo os Jogos Olímpicos, que eram celebrados em Olímpia a cada quatro anos.
Para Coubertin, no texto de 1926, os antigos gregos do tempo de Homero, já percebiam no esporte uma marca de nobreza e uma maneira de honrar os deuses. Coubertin faz uma referência ao Canto VIII da Odisseia, quando o herói Odisseu encontra-se entre os Feácios, um povo mitológico marinheiro e esportista. Estes o convidam para acompanhar seus jogos:
Agora saiamos lá para fora, para celebrarmos Jogos
atléticos, para que o estrangeiro conte depois aos amigos
quando chegar a casa como nós somos excelentes
no pugilato, na luta, nos saltos e nas corridas.
Dois dos três filhos do Rei Alcínoo dos Feácios competiram e venceram suas respectivas provas: Clitoneu venceu na corrida; Laodamante venceu no pugilato. Este último foi o responsável por convidar Odisseu para competir também:
Amigos, perguntemos agora ao estrangeiro se conhece
ou aprendeu contendas atléticas. De corpo não é mau:
reparai nas coxas e nas pernas e em ambos os braços;
no pescoço possante, na grande força. E juventude
não lhe falta, apesar de atormentado por tantas desgraças.
Pois eu não penso haver coisa mais terrível que o mar
para abater um homem, por muito forte que seja.
Entretanto, Laodamante mudou o tom do convite após ser instigado por Euríalo, um nobre:
Agora vem também tu, ó pai estrangeiro, experimentar
qualquer contenda atlética, se porventura sabes alguma.
Fica-te bem conheceres contendas atléticas.
No há maior glória do homem enquanto for vivo
do que os feitos alcançados pelos pés e pelos seus braços.
Experimenta pois qualquer coisa, e afasta as dores do espírito!
Os versos em destaque foram lembrados por Coubertin no texto de 1 de janeiro de 1926.
Odisseu respondeu para Laodamante:
Laodamante, porque me desafiais, para fazerdes troça de mim?
No espírito tenho mais sofrimentos que contendas atléticas,
eu que no passado muito padeci e muitos males aguentei.
Então o nobre Euríalo volta-se para Odisseu para insultá-lo:
No, estrangeiro, a mim não dás impresso de seres um homem
conhecedor de contendas atléticas — das que praticam homens.
Pareces-me mais alguém que vai e vem na nau bem construída,
comandante de marinheiros que são eles próprios mercadores:
alguém que só pensa na carga e está sempre muito atento
aos lucros do regateio. De atleta de facto não tens nada.
Novamente, os versos em destaques foram lembrados por Coubertin no texto de 1 de janeiro de 1926.
Em defesa de sua honra, Odisseu lançou um disco maior, mais grosso e mais pesado que os discos até então lançados pelos Feácios:
[…] Voou o disco além das marcas
Com corpo de homem, Atena marcou o sítio, declarando:
Até um cego, ó estrangeiro, distinguiria a tua marca
pelo tato, visto que se não mistura com as outras,
mas está muito à frente. Anima-te com esta contenda!
Nenhum dos Feaces poderia igualar ou ultrapassar-te.
Assim falou e regozijou-se o sofredor e divino Odisseu,
contente porque alguém por ele torcia no meio da multidão.
Por fim, o herói da Odisseia reforça o espírito de Fair Play entre os praticantes de esportes:
Mas dentre todos os outros, nenhum eu menosprezarei nem
recusarei mas quero conhecê-los, posto à prova, corpo a corpo.
Nada há em que eu seja fraco, nas contendas atléticas dos homens.
Ao reunir Homero e Coubertin, Odisseu e os Jogos Olímpicos modernos, o texto de 1º de janeiro de 1926 revela-se menos como um exercício de erudição clássica e mais como um manifesto sobre a permanência dos valores humanos através do tempo. O herói da Odisseia, ao aceitar o desafio atlético não por vaidade, mas para defender sua honra, encarna um ideal que Coubertin buscou reatualizar no Olimpismo moderno: a supremacia do esforço justo sobre a zombaria, da excelência sobre a aparência, da medida humana sobre a força bruta. Ao escolher o Ano Novo como marco dessa reflexão, Coubertin reafirma que cada ciclo que se inicia carrega a responsabilidade de dialogar com suas origens. Assim, Homero não pertence apenas ao passado, nem Odisseu apenas ao mito: ambos continuam a navegar, simbolicamente, no Espírito Olímpico contemporâneo, lembrando-nos de que os Jogos, ontem como hoje, não celebram apenas a vitória, mas reafirmam, de forma contínua, a dignidade humana.
O Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin deseja que o ano que começa nos inspire com a coragem e a astúcia de Odisseu, a busca pela excelência que Coubertin via nos Jogos, e que os Valores Olímpicos — excelência, amizade e respeito — guiem cada passo. Que enfrentemos desafios com coragem, celebremos conquistas com humildade e transformemos competição em encontro comunitário. Um ano de vitórias, aprendizado e união!
Imagem de capa: Pintura em vaso representando o navio de Odisseu passando pelas sereias. A peça é datada de c. 480–470 a.C. e pertence à coleção do British Museum.
Referências:
COUBERTIN, Pierre de. Les annales méditerranéennes. In: Le Feu, 20e année, 1er janvier 1926, pp.3-6.
HOMERO. Odisseia. Quetzal Editores. Lisboa, 2018.
