O Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin (CBPC) dá prosseguimento à série mensal de matérias que trarão ao público traduções inéditas de escritos de Pierre de Coubertin. De abril de 2025 a março de 2026, diversos textos serão traduzidos para o português, resgatando o legado do fundador do Movimento Olímpico para as novas gerações de leitores e entusiastas do esporte.
O sexto texto da série, “Le Sportif et le Cinéma”, é um artigo assinado por Pierre de Coubertin, datado de 1932. Ele apresenta uma reflexão sobre o papel do cinema como ferramenta pedagógica e corretiva no aperfeiçoamento técnico do atleta.
A seguir, a tradução integral do texto:
Le Sportif et le Cinéma
Todos sabem que, no campo da técnica esportiva, o aperfeiçoamento é difícil de atingir pelos próprios meios. Um homem que queira tornar-se mais resistente ou mais audacioso no esporte consegue-o mais ou menos completamente, mais ou menos rapidamente — é questão de tempo ou de grau; em todo caso, não corre o risco de se enganar de caminho: só há uma via. Não existem para a vontade várias maneiras de gerar coragem ou perseverança. Mas, quando se trata do gesto esportivo, do movimento a executar, a questão do aperfeiçoamento muda completamente de aspecto.
É preciso primeiro assegurar-se se o movimento é executado da melhor maneira possível, em conformidade com a “figura mecânica” do esportista. Cada indivíduo, quanto ao comprimento e à proporção de suas alavancas (sem falar de outros pontos a considerar), apresenta uma “figura mecânica” que o distingue do seu vizinho imediato; essa figura pode parecer semelhante a de outro mais distante, em todo caso constitui um conjunto de condições fisiológicas às quais ele não pode deixar de se submeter — condições que se tornam ainda mais complexas pela intervenção de elementos psico‑fisiológicos, os quais afetam de modo favorável ou desfavorável o seu esforço esportivo.
Todos os que muito observaram os esportistas notaram — observação que é difícil fazer sobre si próprio — que o número de atletas que não sabem aproveitar suas vantagens é quase tão considerável quanto o número daqueles que não sabem neutralizar ao máximo suas desvantagens. Apesar de eu há anos chamar a atenção para a utilidade de conhecer a figura mecânica do indivíduo (a radiografia hoje permite atingi‑la), a importância desse elemento de correção educativa do corpo permanece despercebida. Contudo, isso é apenas um ponto de partida. Nada substitui a reprodução do movimento para controlar sua correção e seu grau de eficácia. O esportista, a esse respeito, dispõe apenas dos olhos de seu treinador ou dos de seus companheiros. Seriam seus próprios olhos que deveriam ser chamados para o controle.
O Cinema está aí para isso. O homem que o instrui, ou mesmo o adversário que interrompe seu próprio treino para observá‑lo, por mais francos e rigorosos que sejam em suas críticas — sem reservas, sem meias‑medidas, sem exageros —, isso será benéfico para você. No entanto, muitas vezes é difícil perceber devidamente as imperfeições que eles assinalam. Se você próprio for testemunha das observações, sua convicção se estabelecerá de imediato e, portanto, será mais fácil corrigir o que deva ser corrigido em sua postura, na mobilização dos músculos, na oportunidade de suas chamadas de força, na habilidade de aplicar pontualmente a “lei do menor esforço” (elemento de economia corporal — logo de sucesso final — que nunca deve ser negligenciado).
Alguém poderá objetar que aqui me refiro apenas aos raros candidatos a campeões, aqueles cujos triunfos se esperam nos encontros internacionais e para os quais as questões de desenvolvimento e treinamento físicos adquirem um valor essencial. Mas não é assim. Falo para todos. Há quase trinta anos, ao examinar os “estímulos esportivos” capazes de agir sobre a juventude contemporânea, eu colocava em primeiro lugar esse incentivo que a Antiguidade e a Idade Média só conheciam em doses infinitesimais e de modo inconsciente: o utilitarismo. Não devemos contar, dizia eu então, nem com a busca da saúde nem com a procura da beleza. Nem mesmo desejar que esses incentivos desempenhem papel predominante entre os jovens, pois poderiam produzir um egocentrismo que rapidamente se transformaria em egoísmo estéril e ressecante. Mas se aparecer na opinião pública, de modo suficientemente convincente, a ideia de que o esportista está favorecido na luta pelo sucesso — que tem mais chances do que o não‑esportista, que o esporte o torna mais apto “para as mudanças de lugar, de ofício, de situação, de hábitos e de ideias que a fértil instabilidade das sociedades modernas torna necessárias” — então o atletismo crescerá progressivamente.
Foi o que ocorreu. E a trágica aventura de 1914–1918 provou ainda que o esporte podia ser tão útil como preparação para as provas da guerra quanto como preparação para o trabalho em tempos de paz. Assim, assistimos recentemente, na Alemanha e na Itália, a experiências curiosas e interessantes de nacionalização do esporte. Os meios diferem, mas o objetivo é idêntico. Às vezes parece‑nos aqui um Licurgo atualizado, ali um tipo de compromisso entre a disciplina espartana e a liberdade ateniense, à qual a Inglaterra permanece claramente apegada. Os outros países hesitam entre tendências que, afinal, talvez não sejam tão contraditórias quanto se supunha a princípio. A experiência será instrutiva de acompanhar.
Seja qual for o método e as circunstâncias, a noção utilitária permanece a que domina o momento. Todo jovem tem interesse — sem saber o que lhe reserva a “fértil instabilidade das sociedades modernas” — em saber manejar uma máquina, um cavalo, um barco, proteger‑se atrás de seus punhos, sair de situações difíceis e perigosas por meio de uma corrida, um salto ou um restabelecimento. Além disso, aprende também a ajudar os outros e a coletividade a que pertence beneficia‑se desse acréscimo do seu valor produtivo. Tudo isso é a “educação esportiva”, que muitos teimam em confundir, por um lado, com a mera educação física e, por outro, com concursos e campeonatos — três aspectos da cultura corporal totalmente diferentes entre si, três problemas que se prejudicam mutuamente quando se tenta tratá‑los com os mesmos métodos e soluções.
O emprego do “cinema corretivo” deve ser considerado sobretudo no que diz respeito à educação esportiva. É no ensino dos diferentes esportes de salvamento, defesa e locomoção que ele pode trazer o reforço mais eficaz. Permitiria realizar economias de tempo e dinheiro, obtendo, entretanto, resultados técnicos superiores aos atualmente alcançados.
As dificuldades práticas não são consideráveis. Enquanto cada ginásio, picadeiro, sala de esgrima, piscina etc. não puder dispor de seus próprios aparelhos cinematográficos — o que não é coisa tão exorbitante (quem imaginaria, há vinte anos, o automóvel ao alcance do operário, como vimos recentemente em tantas fábricas dos Estados Unidos?) — o cinema pode deslocar‑se para encontrar o esportista onde ele treina, ou este pode transportar‑se, com suas armas e bagagens, até perto dos operadores. Sob vários aspectos, a primeira combinação parece preferível, sobretudo porque o esportista deve ser apanhado “ao vivo”, em sua atmosfera habitual e, se possível, sem que o perceba. É a única maneira de obter com precisão o conjunto de seus defeitos técnicos. É a isso que se visa, não é? Quanto mais “indiscreto” for o aparelho, mais “corretivo” ele se mostrará. Máxima perigosa além do esporte, sem dúvida… mas, por ora, mantenhamo‑nos dentro do campo. Fiquemos por aqui.
Pierre de Coubertin, 1932.
In: Bulletin du Bureau International de Pédagogie sportive, Lausanne, s.d. [1932], no 8, pp.7-9.
Coubertin sempre viu o esporte como mais do que competição: como uma escola de caráter e de vida. Nos trechos aqui traduzidos ele reafirma valores centrais do seu pensamento — educação integral do corpo e do espírito, disciplina, respeito entre adversários, espírito coletivo e utilitarismo social — ao sustentar que a prática esportiva prepara o indivíduo para enfrentar mudanças, colaborar com a coletividade e ser mais eficaz em tarefas reais. Para ele, o aprimoramento técnico não é um fim em si, mas um meio de aumentar a responsabilidade social do esportista e de reforçar virtudes humanas que extrapolam o campo de jogo.
Ao mesmo tempo, Coubertin revela um notável faro pedagógico ao reconhecer e explorar as nascentes tecnologias de sua época — em especial o cinema — como instrumentos de excelência para o ensino esportivo. Sua proposta de tornar o atleta espectador de si mesmo, filmando movimentos “in situ” para identificar e corrigir defeitos, antecipa práticas que hoje consideramos rotina (análise de vídeo, biomecânica). Essa combinação de princípios éticos e uso criativo da técnica revela a genialidade prática do autor: ele não só defendia valores duradouros, mas também sabia aproveitar inovações para transformar esses valores em métodos efetivos de formação.
(fonte da imagem: Olympics.com)
