Hoje, 25 de agosto o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português graças ao uso de Inteligência Artificial. Pela primeira vez em mais de cem anos, os 58 textos publicados no jornal belga L’Indépendance Belge, sob o título Lettres d’un Indépendant, estarão disponíveis para o público, graças à pesquisa do historiador e membro do CBPC Carlos Eugênio Negreiros.
A seguir, o décimo texto, Une Nouvelle Triplice (Uma Nova Tríciple), de 28 de fevereiro de 1900.

UMA NOVA TRÍPLICE
Parece que a Europa anseia por uma nova Tríplice. A coisa não seria de admirar. Dada a situação atual das grandes potências, a união de apenas duas delas só poderia trazer resultados negativos; para agir, mesmo que com pouca eloquência, é preciso ser três.
Infelizmente para a França, essa verdade não se revelou aos diversos gabinetes que se sucederam durante a presidência de Félix Faure; tampouco o chefe de Estado a percebeu. Naquele tempo, os franceses ainda se contentavam com as alegrias exteriores da aliança russa: não queriam olhar além dela.
Para que a aliança Russa se revertesse em proveito deles, era necessária a adesão da Inglaterra ou da Alemanha. Disse-se depois que o acordo anglo-franco-russo era uma utopia; isso é um grande engano. Ele conta com muitos partidários em Londres e muitos em Petersburgo, não entre a multidão, pouco habituada a essa ideia, mas entre a elite. Se a França tivesse, naquela época, se empenhado em servir de elo entre a Rússia e a Inglaterra, teria encontrado poucas dificuldades e obtido um benefício sem precedentes na história de suas negociações diplomáticas. A hora era propícia; passou e não voltará mais.
O astro de outra Tríplice surgiu então no horizonte. Mas esse astro não era um sol: era uma lua morta, sem calor e sem vida, refletindo uma luz emprestada. Para unir-se à Alemanha, não por uma união passageira, firmada com um fim determinado, mas por uma união geral e duradoura, a Rússia teria de acorrentar boa parte de sua liberdade, e a França, sacrificar uma boa dose de honra; pois uma aliança dessa natureza não pode ser selada sem que as eventualidades da sucessão da Áustria tenham sido consideradas pelas partes contratantes e sem que um entendimento tenha sido alcançado entre elas.
Ah! sem dúvida, era possível chegar a um acordo para “importunar” a Inglaterra, infligindo-lhe humilhações e recuos de influência. Já disse outro dia por que o governo da República não se prestou a esse jogo, e por que era preciso elogiá-lo por isso. Mas aqui não se trata de uma coalizão semelhante, puramente circunstancial; trata-se de uma Tríplice duradoura, que sucederia à outra — a primeira, que já cumpriu seu tempo e não serve mais para nada.
Pois bem! creio que Guilherme II trabalha para erguê-la. Ele se dá conta do que a França, a Inglaterra e a Rússia poderiam ter feito, unidas entre si. Já não crê na possibilidade de uma aliança franco-russo-alemã. Como, aliás, tem mais senso político do que Bismarck, sabe que o “túmulo” da Inglaterra ainda não foi cavado em lugar nenhum, nem na África do Sul, nem alhures. Os acontecimentos recentes entusiasmaram seu povo, mas não abalaram sua resolução.
O imperador da Alemanha, podem estar certos, sonhou com uma aliança anglo-germano-italiana, apoiada pelo Japão e pelos Estados Unidos, e baseada em convenções secretas e precisas relativas à eventual dissolução da Áustria, à partilha da África e à exploração comercial da China.
E não é para lutar contra a frota britânica que ele vai construir a sua. É para dobrá-la.
Pierre de Coubertin, 28 de fevereiro de 1900.
Notas do historiador:
- Tríplice: referência à Tríplice Aliança firmada em 1882 entre a Alemanha, a Áustria-Hungria e a Itália. Ao longo do texto, Coubertin especula sobre a formação de uma “nova Tríplice”, isto é, um novo bloco de alianças entre três potências, distinto daquele.
- Félix Faure (1841-1899): presidente da República Francesa entre 1895 e sua morte, em fevereiro de 1899, ainda no exercício do mandato.
- Aliança russa: refere-se à Aliança Franco-Russa, firmada entre 1892 e 1894, que aproximou a França republicana do Império Russo czarista como contrapeso à Tríplice Aliança.
- Sucessão da Áustria: alusão às incertezas quanto ao futuro do Império Austro-Húngaro, então governado pelo imperador Francisco José I (falecido apenas em 1916), tema recorrente nos cálculos diplomáticos europeus da época.
- Guilherme II (1859-1941): Kaiser (imperador) da Alemanha e rei da Prússia de 1888 a 1918.
- Otto von Bismarck (1815-1898): chanceler alemão de 1871 a 1890, artífice da unificação alemã e do sistema de alianças europeu do final do século XIX, incluindo a Tríplice Aliança de 1882.
- Partilha da África: alusão à chamada “Corrida pela África” (Scramble for Africa), processo de disputa e divisão colonial do continente entre as potências europeias ao longo do final do século XIX.
- Exploração comercial da China: referência à disputa das potências ocidentais e do Japão por zonas de influência e concessões comerciais na China, contexto que culminaria, ainda em 1900, na Rebelião dos Boxers.
