Hoje, 13 de outubro, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português graças ao uso de Inteligência Artificial. Pela primeira vez em mais de cem anos, os 58 textos publicados no jornal belga L’Indépendance Belge, sob o título Lettres d’un Indépendant, estarão disponíveis para o público, graças à pesquisa do historiador e membro do CBPC Carlos Eugênio Negreiros.
A seguir, o décimo sétimo texto, La reine Victoria en Irlande (A rainha Vitória na Irlanda), de 18 de abril de 1900.

A rainha Vitória na Irlanda
A visita da rainha Vitória à Irlanda foi decidida por ela mesma, contra a vontade de toda a família real — exceto o príncipe de Gales— e de todos os ministros. Trata-se, da parte de uma soberana octogenária, de um belo traço de energia. Isso confere à viagem seu verdadeiro caráter: viagem política, tem-se dito; isso não é exato. A inspiração partiu de muito mais alto. A Rainha acompanhou com olhar comovido os soldados da Irlanda no Transvaal; viu combater e morrer, com admirável bravura, nos campos de batalha que seu coração abomina, esses regimentos compostos de verdadeiros guerreiros que, em sua alegria de lutar, esquecem-se de olhar a cor da bandeira sob a qual vão para o combate. E essa mulher, cuja vida é, há sessenta anos, dominada pela noção do dever, compreendeu que uma nova obrigação lhe era imposta, a de levar ela mesma à Irlanda a mensagem do reconhecimento nacional; sem se preocupar com as fadigas certas, com o perigo possível, nem mesmo com a provável inutilidade de semelhante empreendimento, pôs-se a caminho.
Há doravante, na vida da Rainha, um traço a mais que será citado em seu louvor; mudou alguma coisa no equilíbrio de seu império? Não. O governo britânico, que se opunha à viagem, não está preparado para consentir uma emancipação, mesmo parcial, da Irlanda, e não temo acrescentar que a Irlanda tampouco está preparada para aproveitar essa emancipação, se amanhã lhe fosse concedida.
Um fato capital domina todo esse problema irlandês, que se julga, na Europa, de maneira puramente sentimental, muito afastada, por conseguinte, de seu aspecto real. É que os eventuais governantes dessa ilha infortunada já não estão na Irlanda. Estão na América, na Austrália, na Nova Zelândia; nessas terras novas fizeram fortuna, multiplicaram-se; formam hoje uma enorme massa de quase dez milhões de almas. Os laços da religião e do patriotismo mantêm-nos estreitamente unidos. Mas voltarão?… Toda a questão está aí.
Ah! se voltarem, dentro de vinte anos a Irlanda será independente; mas se não voltarem — e não parecem dispostos a deixar seus novos lares —, então, que resta na verde Érin?… Um populacho que não merece, é certo, todo o mal que dele se diz, mas que está a quinhentos pés abaixo da tarefa que se gostaria de lhe confiar — e uma aristocracia que, mesmo católica de religião e irlandesa de nome, é há muito tempo vassala da Inglaterra e faz votos secretos pela manutenção de sua dominação. São esses os elementos com os quais a autonomia poderia nascer e prosperar?
Pierre de Coubertin, 18 de abril de 1900.
Notas do historidor:
- Vitória (1819–1901), rainha do Reino Unido desde 1837 e imperatriz da Índia desde 1876. Tinha 80 anos em abril de 1900, daí o adjetivo “octogenária”, e reinava havia mais de sessenta anos, como lembra Coubertin adiante. Visitou a Irlanda, então parte do Reino Unido, em abril de 1900, sua primeira estadia ali desde 1861.
- Alberto Eduardo (1841–1910), Príncipe de Gales, filho primogênito de Vitória, que subiria ao trono em 1901 como Eduardo VII.
- Transvaal: República Sul-Africana dos bôeres, um dos palcos da Segunda Guerra dos Bôeres (1899–1902), travada contra o Império Britânico. Regimentos de recrutamento irlandês, como os Royal Dublin Fusiliers e os Connaught Rangers, lutaram nessa guerra, entre outros combates na batalha de Colenso (dezembro de 1899), no Natal. Em reconhecimento a esses soldados, a rainha determinou, em 1900, a criação da Guarda Irlandesa (Irish Guards).
- A “emancipação” de que fala Coubertin é a autonomia política da Irlanda (Home Rule), cujos projetos de lei de 1886 e 1893 haviam sido derrotados no Parlamento britânico; a Irlanda integrava o Reino Unido desde o Ato de União (1801).
- Alusão à diáspora irlandesa, intensificada pela Grande Fome da década de 1840, que levou milhões de irlandeses e seus descendentes aos Estados Unidos (aqui designados, de modo genérico, como “América”), à Austrália e à Nova Zelândia. A cifra de “quase dez milhões de almas” é estimativa do próprio Coubertin.
- Érin (em irlandês, Éirinn): nome poético da Irlanda.
- O pé francês equivalia a cerca de 32 cm, de modo que a expressão, de efeito hiperbólico, indica uma distância de aproximadamente 160 metros.
