Hoje, 04 de agosto, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português graças ao uso de Inteligência Artificial. Pela primeira vez em mais de cem anos, os 58 textos publicados no jornal belga L’Indépendance Belge, sob o título Lettres d’un Indépendant, estarão disponíveis para o público, graças à pesquisa do historiador e membro do CBPC Carlos Eugênio Negreiros.
A seguir, o sétimo texto, L’Afrique du Sud (A África do Sul), de 11 de fevereiro de 1900.

A ÁFRICA DO SUL
Mirabeau já zombava, em seu tempo, dos que anunciavam periodicamente a ruína da Inglaterra. Parece que essa é uma velha mania. O próprio Bismarck foi vítima dela. Atribui-se a ele esta frase extraordinária: “A África do Sul será o túmulo da Inglaterra”. Se ele de fato a disse — do que duvido um pouco —, a única conclusão a tirar seria que os homens de gênio dizem, ocasionalmente, tolices como os demais.
A África do Sul não pode prescindir dos ingleses tanto quanto não pode prescindir dos holandeses. É justamente isso, aliás, que faz da guerra atual uma das mais absurdas que uma nação já empreendeu. Infelizmente, o povo inglês, mal informado a respeito da África do Sul e, além disso, obstinadamente confiante na integridade e na “respeitabilidade” da alta classe de onde se recrutam seus governantes, seguiu-os sem hesitação. Recusou-se a admitir que, no topo do edifício político, nessas esferas onde até então a suspeita não penetrava, um grupo de especuladores inescrupulosos pudesse ter, lenta e habilmente, preparado o conflito e tornado-o inevitável; preferiu crer no conflito afrikaander e considerar o “tio Paulo”[4] um monstro de dissimulação e perversidade.
Separada ou não da Inglaterra, a África do Sul continuará sendo uma terra anglo-holandesa, e não é uma das menores tristezas da hora presente pensar em todo esse sangue juvenil que corre em vão — mais do que em vão, mesmo —, já que, no fundo, ele apenas adia, lá longe, um apaziguamento necessário e uma colaboração fatal.
Mas se a guerra não pode trazer, no Cabo, os resultados em vista dos quais é travada, é em Londres que ela pode produzir, por efeito reflexo, uma mudança formidável cujas consequências o universo, daqui a cem anos, não terá terminado de suportar. O mundo anglo-saxão, que repousava inteiramente sobre a força moral e que prometia aos homens fórmulas novas para se conduzirem na existência, para melhorar sua condição e suavizar suas relações mútuas, vai ele se render à força material e retornar bruscamente à fórmula dos séculos envelhecidos? Vai ele frustrar as esperanças que, de todos os pontos do globo, os espíritos livres haviam depositado nele? Vai ele entorpecer seus membros e entravar seus movimentos, revelando a armadura das potências continentais?
Essa armadura lhe cairá bem, podem crer: vocês registram com ar zombeteiro as gafes dos oficiais. Mas como poderiam eles aplicar uma ciência que nunca aprenderam, uma estratégia que, até agora, nenhum deles havia estudado? Observem antes como morrem tantos homens e como, a mil léguas dali, se comporta uma opinião pública estúpida, ignorante, longamente privada de notícias, depois bruscamente mergulhada no luto e, ainda assim, incansável em paciência, dignidade e energia.
Ah! temam — não por vocês, franceses, alemães, russos, que estão em condições de resistir —, mas temam pelo gênero humano, por sua felicidade e seu repouso, que toda essa força moral que se vê brotar do solo britânico se converta em força material. Isso seria uma calamidade espantosa. Encorajem antes os homens audaciosos e independentes que trabalham, em plena Londres, para remontar a corrente e, sem cessar de lançar o anátema ao desprezível vencedor desta guerra detestável — por Deus! não confundam a Inglaterra que combate com a corja vil que a faz combater. Lembrem-se dos mortos sublimes que dormem em Westminster, e convidem seus descendentes a reencontrar o verdadeiro caminho que perderam, o caminho pelo qual as comunidades anglo-saxônicas marchavam, ainda ontem, rumo aos cumes da terra.
Pierre de Coubertin, 11 de fevereiro de 1900.
Notas do historiador:
- Honoré Gabriel Riqueti, conde de Mirabeau (1749-1791), célebre orador e homem de Estado francês, figura de proa dos primeiros anos da Revolução Francesa, conhecido por sua eloquência e por prognósticos políticos frequentemente citados na imprensa do século XIX.
- Otto von Bismarck (1815-1898), chanceler do Império Alemão e arquiteto de sua unificação. A frase que lhe é atribuída sobre a África do Sul como “túmulo da Inglaterra” circulava na imprensa europeia da época a propósito da Guerra dos Bôeres; Coubertin, como o próprio texto sugere, manifesta ceticismo quanto à sua autenticidade.
- Refere-se à Segunda Guerra dos Bôeres (1899-1902), conflito entre o Império Britânico e as repúblicas bôeres do Transvaal (República Sul-Africana) e do Estado Livre de Orange, então em curso.
- “Afrikaander” (grafia de época; hoje “afrikaner”) designa os colonos de origem neerlandesa estabelecidos na África do Sul e, por extensão, o movimento político-identitário bôer, associado sobretudo ao Afrikaner Bond, partido atuante na Colônia do Cabo. Ao mencionar o “conflito afrikaander”, Coubertin contrapõe essa leitura étnico-política do conflito à hipótese, que julga mais provável, de manipulação por especuladores financeiros.
- “Tio Paulo” traduz “l’oncle Paul”, apelido corrente na imprensa europeia da época para Paul Kruger (1825-1904), presidente da República Sul-Africana (Transvaal) e principal liderança política e simbólica da resistência bôer contra a Grã-Bretanha. O apelido inglês original, “Oom Paul” (literalmente “tio Paulo” em africâner), era amplamente reproduzido, com frequência de forma pejorativa, pelos jornais britânicos e continentais.
- “O Cabo” refere-se à Colônia do Cabo, colônia britânica no sul do continente africano e principal base das operações militares do Império Britânico durante a guerra.
