Hoje, 14 de julho, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português, e publicados no jornal belga L’Indépendance Belge.
A seguir, o quarto texto, Kipling au Transvaal (Kipling no Transvaal), de 28 de janeiro de 1900.

Kipling no Transvaal
O exército inglês será em breve provido de todas as engrenagens da guerra, desde a mais antiga até a mais moderna. Acabam de lhe enviar um automóvel blindado e um poeta. O Sr. Rudyard Kipling partiu para a Cidade do Cabo com sua lira numa mala e seus colarinhos postiços na outra. Ele parte para reencontrar seus heróis e cantar suas façanhas.
Gadsby, um bravo oficial cuja toda ciência militar se aplica a diminuir de alguns gramas o peso do equipamento de seus homens, problema que ele se propôs e que persegue, por três anos, com incansável perseverança; Mulvaney, o soldado incorrigível, rebaixado de patente porque é obrigado a se embriagar completamente duas vezes por mês, mas que não tem igual para ensinar aos recrutas, por seu exemplo, a temer a Deus, honrar a Rainha, atirar bem e se manter limpo; Stalky, enfim, o colegial deliciosamente impertinente, adoravelmente zombeteiro, que escapa regularmente na hora das aulas para ir fumar cachimbos precoces nos arredores obscuros…
Dizem que este Stalky foi camarada do autor, o que tenderia a provar que o Sr. Kipling não foi educado em Harrow, nem em Rugby, nem em Winchester, nem em Cheltenham, nem em Eton… mas em alguma espelunca qualquer…
Gadsby, Mulvaney e Stalky não são os construtores de Impérios; são pessoas robustas cujas qualidades eu não negaria. Não, eles sabem morrer e não temem a derrota, o que é, talvez, para uma nação, a qualidade suprema e a melhor maneira de esperar a vitória. Apenas que, se houvesse apenas eles para construir o Império Britânico, o Império Britânico não teria sido construído. Os melhores pedreiros não poderiam prescindir do gênio do arquiteto nem do talento do engenheiro.
Aqueles que o construíram são os Pitt, os Wellington, os Robert Peel, os Cobden, os Arnold, os Lawrence, os Beaconsfield, os Gladstone, os Manning e esse grande Ruskin, o inimigo de toda feiura e de toda barbárie, diante de cujo túmulo a Europa continental se curva por instinto — pois ela nunca o compreendeu, tão inglês ele era —, para quem a Inglaterra, hoje ingrata, retornará mais tarde para se buscar e se reconhecer nele.
Pobre Ruskin! A loucura o tomara e seu cérebro já não era mais deste mundo… no entanto, há em seu país quem inveje sua sorte e lamente ter vivido demais.
Pierre de Coubertin, 28 de janeiro de 1800.
Notas do historiador:
- Rudyard Kipling e o Transvaal: O texto faz referência à viagem do escritor britânico Rudyard Kipling à África do Sul (Cidade do Cabo) durante a Guerra dos Bôeres (1899-1902), onde o Império Britânico lutou pelo controle do Transvaal.
- Gadsby, Mulvaney e Stalky: São três célebres personagens das obras de Rudyard Kipling, representantes do homem comum e do militar britânico de base. Gadsby é de “The Story of the Gadsbys” (1888); Mulvaney é de “Soldiers Three” (1888); e Stalky é o protagonista de “Stalky & Co.” (1899) . O texto argumenta que embora esses homens comuns lutem nas guerras, eles não são as “mentes” que arquitetam os impérios.
- Harrow, Rugby, Winchester, Cheltenham, Eton: Algumas das mais antigas, caras e prestigiosas escolas independentes (public schools) da Inglaterra. O texto ironiza o comportamento rebelde do personagem Stalky (inspirado num amigo de juventude de Kipling) sugerindo que ele não teve uma educação refinada nessas escolas de elite.
- Construtores de Império (Pitt, Wellington, etc.): A lista inclui figuras proeminentes da política e do pensamento britânico que realmente “arquitetaram” o império, em oposição aos soldados (“pedreiros”) que o construíram no campo de batalha . Inclui figuras como William Pitt (político), o Duque de Wellington (herói militar de Waterloo), Robert Peel e William Gladstone (primeiros-ministros), Benjamin Disraeli (Beaconsfield), entre outros.
- John Ruskin: Crítico de arte e pensador vitoriano inglês. Ele morreu em 20 de janeiro de 1900, época exata em que essa carta foi escrita, o que justifica a homenagem emocional no final do texto. Ruskin passou seus últimos anos recluso e sofrendo de instabilidade mental (“a loucura o tomara”) .
