Hoje, 11 de agosto, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português.
A seguir, o oitavo texto, Lettre de Jordan, Président de l’Université Palo Alto, sur la démocratie (Carta de Jordan, presidente da Universidade de Palo Alto, sobre a democracia), de 17 de fevereiro de 1900.

CARTA DE JORDAN, PRESIDENTE DA UNIVERSIDADE DE PALO ALTO, SOBRE A DEMOCRACIA
Não é somente na Inglaterra que se encontram indivíduos valorosos ocupados em erguer barricadas no caminho do imperialismo. A mesma tarefa se cumpre nos Estados Unidos. Tenho diante dos olhos o livro recente e já célebre que o presidente Jordan publicou sob este título sugestivo: “Imperial Democracy”. Trata-se de uma coletânea de discursos de circunstância proferidos em Omaha e em São Francisco, e de artigos de combate publicados no Forum e no Atlantic Monthly.
David Starr Jordan é um presidente de universidade, isto é, um daqueles homens que, fora dos febris períodos eleitorais, exercem sobre a opinião americana uma influência preponderante. Desde o início da guerra com a Espanha, tomou posição de modo inequívoco. Não fundou um jornal como Stead, não formou comitês, não promoveu comícios….. mas, todas as vezes em que teve ocasião, expôs o seu pensamento com uma liberdade e uma franqueza bem capazes de surpreender os europeus. Na Europa, com efeito, a função amarra o indivíduo. Lá, pensa-se que um indivíduo amarrado não está em condições de exercer plenamente a função que lhe é confiada. É por isso que o presidente Jordan é livre para dizer o que pensa — e disso se aproveita.
Ele o diz em frases breves, soldadas umas às outras por repetições — como seriam os elos de uma verdadeira corrente: estilo muito peculiar, que impressiona fortemente por sua clareza e simplicidade. A tese é igualmente simples: a base de vossa democracia, diz ele a seus compatriotas, é a igualdade perante a lei. No dia em que reivindicardes possessões coloniais às quais o princípio seja inaplicável, minareis essa base e comprometereis a solidez de todo o edifício. De vez em quando, a corrente se interrompe e o leitor é distraído por um esboço artístico de algum detalhe antiamericano da vida cubana ou filipina — ou então lhe é lembrado, em palavras de fogo, em que consiste um “verdadeiro patriotismo”.
Ao ler o livro, eu revia, através dessa prosa ao mesmo tempo forte e elegante, nervosa e sóbria, as radiosas paisagens californianas diante das quais ela fora composta, e recordava uma manhã de pleno sol, passada a vaguear em companhia do presidente Jordan sob os claustros vermelhos da Universidade de Palo Alto. Ao nosso redor estendia-se o parque ainda jovem, cujas folhagens claras eram iluminadas pela silhueta irisada das montanhas. Ali perto, entre eucaliptos, palmeiras e roseiras repousavam lado a lado numa capela de mármore branco, mausoléu erguido pelo coração generoso que concebera a ideia dessa fundação régia e pelo pai inconsolável que a realizou em memória do filho único, prematuramente arrancado à sua ternura; e eu repetia para mim mesmo as admiráveis palavras com que o senador Leland Stanford inaugurou a universidade à qual confiava a tarefa de honrar a memória de seu filho…
Desde então, milhões de dólares têm sido doados à rival de Palo Alto, a Universidade da Califórnia; um arquiteto francês a reconstruiu, e em breve os seus palácios se elevarão, em terraços, sobre as colinas que margeiam a baía de São Francisco, em frente à prestigiosa Porta de Ouro.
Feliz Califórnia, que possuirá assim as duas mais belas Universidades do mundo, terra de arte e de poesia que, sob seu céu transparente, poderão vir a ser, em idades futuras, a Grécia do Novo Mundo.
Pierre de Coubertin, 17 de fevereiro de 1900.
Notas do historiador:
- David Starr Jordan (1851-1931), ictiólogo e educador estadunidense, primeiro reitor da Universidade Stanford (1891-1913). Figura de proa do movimento pacifista e antiimperialista norte-americano na virada do século XIX para o XX.
- Imperial Democracy (1899), obra de David Starr Jordan que reúne discursos e ensaios contrários ao expansionismo colonial dos Estados Unidos após a Guerra Hispano-Americana, sobretudo quanto à anexação das Filipinas.
- William Thomas Stead (1849-1912), jornalista britânico pioneiro do chamado “novo jornalismo” investigativo, célebre por suas campanhas de mobilização da opinião pública — entre elas a oposição à Guerra dos Bôeres, tema da carta anterior desta série.
- A Universidade Stanford, fundada em 1885 por Leland e Jane Stanford, situa-se em Palo Alto, Califórnia; David Starr Jordan foi seu primeiro reitor.
- Leland Stanford (1824-1893), empresário ferroviário, governador e depois senador pelo estado da Califórnia. Fundou com a esposa, Jane Stanford, a universidade que leva o nome da família, em memória do filho único do casal, Leland Stanford Jr., morto aos quinze anos em 1884.
- A Universidade da Califórnia, sediada em Berkeley, tradicional rival de Stanford na região da baía de São Francisco.
- Referência ao arquiteto francês Émile Bénard, vencedor em 1899 do concurso internacional promovido pela mecenas Phoebe Hearst para o novo plano diretor do campus de Berkeley. “Porta de Ouro” (Golden Gate) designa o estreito que dá acesso à baía de São Francisco.
