Hoje, 29 de setembro, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português.
A seguir, o décimo quinto texto, Arbitration (A Arbitragem), de 3 de abril de 1900.

A ARBITRAGEM
Tudo leva a crer que o Sr. de Lisola deve partir em breve de Liège para retornar a Colônia. Como seria uma grande vantagem poder capturá-lo, e como até mesmo não haveria grande inconveniente em matá-lo, porque é um homem muito impertinente em seus discursos e que emprega todo o seu engenho contra os interesses da França, o senhor não poderia crer o quanto ganharia as boas graças de Sua Majestade se pudesse mandar executar esse projeto.
Eis o que escrevia Louvois em 1674; esse Sr. de Lisola era um plenipotenciário do Imperador e já não me lembro do que foi feito dele, nem se encontrou, no canto de um bosque, o destino que sugeria, em termos tão discretos e tão galantes, a comunicação do ministro francês. Isso, aliás, tem para mim apenas importância secundária, pois não procuro despertar em vocês compaixão pelo Sr. de Lisola nem incitá-los contra a perfídia do Sr. de Louvois. Mas este pequeno texto encerra, parece-me, uma moral interessante a extrair.
Vocês notarão que, há dois séculos, quando a carta foi escrita, o Direito das Gentes já existia; apenas os homens de Estado que governavam a Europa não se julgavam de modo algum obrigados a conformar-se com os seus princípios, estimando provavelmente que ele fora feito para aqueles que não governavam.
Assim, as instituições frequentemente antecedem o espírito público, e só se costuma fazer uso delas depois de tê-las tido longo tempo diante dos olhos. Imaginar que basta mostrar aos povos da Europa a arbitragem organizada para decidi-los a recorrer a ela é um pouco ingênuo; mas imaginar que, porque hoje os governos ainda olham a arbitragem com olhar desconfiado, o mesmo se dará dentro de cinquenta anos, é ser ainda mais ingênuo.
Isto em resposta às excelentes pessoas que zombam por terem visto a guerra anglo-bôer eclodir no dia seguinte à Conferência de Haia. Ah! É muito engraçado, na verdade; é o cúmulo da comicidade. Mas, minha boa gente, tratem de passar de novo por aqui por volta de 1950, se ainda estiverem neste mundo, o que desejo a vocês. E verão se a arbitragem não terá feito caminho.
Ora, como diria então o Sr. de La Palice, se não tivesse tido pernas, não teria feito caminho algum. Bendigam, portanto, mesmo assim, o Imperador da Rússia e esses senhores da Conferência, que lhe deram pernas.
Pierre de Coubertin, 3 de abril de 1900.
Notas do historiador:
- François-Paul, barão de Lisola (1613–1674): diplomata e panfletário nascido em Salins, na Franche-Comté, a serviço dos Habsburgo de Viena e adversário ferrenho da política de Luís XIV. É o autor do Bouclier d’État et de justice (1667), libelo contra as pretensões francesas.
- Colônia (Köln), cidade do Sacro Império às margens do Reno, sede em 1673–1674 de um congresso de paz destinado a encerrar a Guerra Franco-Holandesa. Lisola atuava ali em favor do Império contra a França.
- François-Michel Le Tellier, marquês de Louvois (1641–1691): secretário de Estado da Guerra de Luís XIV e um dos principais artífices da política militar do reinado.
- Plenipotenciário: agente diplomático investido de plenos poderes para negociar e concluir acordos em nome do soberano que o envia.
- Direito das Gentes (droit des gens, do latim ius gentium): denominação antiga do que hoje se chama direito internacional público, isto é, as normas que regem as relações entre Estados.
- Arbitragem internacional: método de solução pacífica de litígios entre Estados, por meio da decisão de um ou mais árbitros escolhidos pelas partes. Foi um dos temas centrais da Conferência de Haia de 1899, que instituiu a Corte Permanente de Arbitragem. Coubertin escreve este texto em 1900, menos de um ano depois.
- Segunda Guerra dos Bôeres (outubro de 1899 – maio de 1902), travada entre o Reino Unido e as repúblicas bôeres do Transvaal e do Estado Livre de Orange, na atual África do Sul. Começou poucos meses após o encerramento da Conferência de Haia, o que alimentava a ironia dos céticos quanto à arbitragem.
- Primeira Conferência Internacional da Paz, reunida em Haia (Países Baixos) entre maio e julho de 1899, por iniciativa do czar Nicolau II. Adotou a Convenção para a Solução Pacífica dos Conflitos Internacionais e criou a Corte Permanente de Arbitragem.
- Jacques de Chabannes, senhor de La Palice (c. 1470–1525), marechal da França, morto na batalha de Pavia. Uma canção composta em sua memória foi mal compreendida e deu origem ao termo “lapalissada” (em francês, lapalissade): verdade tão evidente que chega a ser cômica. A frase que Coubertin põe na boca do marechal é uma lapalissada, e o jogo de palavras está em “fazer caminho” (faire du chemin), que significa tanto andar quanto progredir: sem pernas, a arbitragem não teria avançado.
