O francês Pierre de Frédy, mais popularmente conhecido como Pierre de Coubertin, ou pelo seu título de nobreza: Barão de Coubertin, foi a ilustre figura central na ressignificação dos Jogos Olímpicos durante a Modernidade, na fundação do Comitê Olímpico Internacional (COI) e na instituição do fenômeno Olímpico moderno conforme o conhecemos hoje. Grande idealizador dos Jogos Olímpicos Modernos e da filosofia do Olimpismo, existe uma característica essencial do francês muito importante para a estruturação do Movimento Olímpico: Pierre de Coubertin era um educador.
Não à toa que o caráter educacional, voltado para a formação humana, moral e de promoção de valores, se tornaria essencial para o Movimento Olímpico e para a filosofia Olímpica do Olimpismo. Coubertin acreditava fielmente na instrumentalização do esporte e dos Jogos Olímpicos para a educação e formação humana, promovendo um mundo melhor, mais pacífico, mais inclusivo, respeitoso, de união e compreensão mútua entre os povos. Ele foi um vanguardista na ideia de utilizar o esporte como ferramenta que atuasse nestes aspectos, enfatizando seu potencial educativo e de transformação humana.
Reconhecendo a importância da figura de Coubertin enquanto educador, hoje damos início ao editorial intitulado: “Pierre de Coubertin – do passado ao presente: educação, Olimpismo e sociedade”. Ao longo de 11 semanas, exploraremos a identidade de Coubertin associada à educação, revisitando o passado para compreender contextos e panoramas históricos que atravessavam a sociedade em que Coubertin viveu, o que se pensava a respeito de educação, o sistema educacional e suas perspectivas sobre formação humana, as problemáticas enfrentadas no contexto e como o idealizador dos Jogos Olímpicos Modernos se posicionou quanto a elas. Reflexões sobre as visões de Coubertin acerca de educação e formação humana em contextos mais amplos, bem como o possível papel do esporte e dos Jogos Olímpicos na formação e no desenvolvimento holístico do ser humano, também estarão presentes.
Entretanto, mais que olhar para o passado, este editorial visa também olhar para o presente e o futuro. Compreende-se que o pensamento, o legado e a memória de Pierre de Coubertin, se submetidos a um olhar contextualizado, podem servir de base para reflexões a respeito de temas emergentes que atravessam a educação e a sociedade contemporânea, oferecendo caminhos e reflexões possíveis para avançar em diferentes dimensões da vida humana.
Para dar início a essa série de reflexões, convidamos você para a leitura da primeira matéria do editorial, intitulada: “Pierre de Coubertin e a sociedade francesa do século XIX: instabilidades, crises e o panorama do sistema educacional”. Aqui discutiremos contextos a respeito da sociedade francesa em que Coubertin vivia quando começou a desenvolver suas ideias, bem como iremos contextualizar o que se pensava sobre educação nesse panorama e as problemáticas enfrentadas.
Pierre de Coubertin e a sociedade francesa do século XIX: instabilidades, crises e o panorama do sistema educacional
Pierre de Coubertin nasceu em Paris, na Europa, no dia 1º de janeiro de 1863, sendo o quarto filho de uma nobre família católica parisiense. No contexto do século XIX, em que Coubertin nasceu, a França atravessava um período tenso marcado por turbulências sociopolíticas que perdurou por aproximadamente 100 anos e influenciou de maneira significativa a vida dos cidadãos franceses na época.
No referido contexto, a França passou por uma série de transições de regimes políticos. Até o ano de 1789, próximo à virada do século XVIII para o XIX, a França se caracterizou como um regime político de monarquia absolutista, quando passou pela Revolução Francesa e pela proclamação da Primeira República, no ano de 1792.
Desde então, a França atravessou um pêndulo de trocas de regimes que alteraram a configuração de sua sociedade. Devido à instabilidade da democracia francesa instituída na Primeira República, Napoleão Bonaparte tomou o poder e se coroou imperador, estabelecendo o Primeiro Império, em 1804.
O período napoleônico, entretanto, esgotou a França, militar e economicamente, após décadas de conflitos envolvendo outras potências europeias. Após uma série de eventos que enfraqueceram o Império Napoleônico, o golpe fatal foi dado em 1815, quando um grupo de países europeus se uniu contra Napoleão Bonaparte em um conflito próximo à região de Waterloo, atual Bélgica, que derrotou de vez o imperador francês.
O resíduo do desgastante pós-Napoleão preparou o terreno para o restabelecimento do regime monárquico, com os reis Luís XVIII e Carlos X. O primeiro deles instituiu uma monarquia constitucional, que estabelecia limites ao poderio real. Entretanto, quando Carlos X assumiu, foram realizadas tentativas de ressuscitar privilégios reais do regime absolutista, o que levou a uma revolta popular e à derrubada de Carlos X, colocando Luís Felipe I no lugar e instituindo a Monarquia de Julho, em 1830, caracterizada como uma monarquia constitucional liberal que colocava a burguesia em posição favorável.
Em 1848, houve novamente a queda do regime monárquico e instituição da Segunda República, proclamada em meio a uma onda revolucionária que ocorria na época e ficou conhecida como a “Primavera dos Povos”, elegendo Luís Napoleão Bonaparte — sobrinho de Napoleão I — como presidente da nova república. Entretanto, em 1851, o próprio Luís Napoleão Bonaparte aplicou um golpe de Estado, com apoio militar, e aboliu a Segunda República, proclamando o Segundo Império e passando a se auto intitular Imperador Napoleão III.
Foi no contexto de domínio político e liderança do Imperador Napoleão III que nasceu Pierre de Coubertin, tendo os momentos iniciais de sua infância se passado no ápice desse império. Neste mesmo período, começa a se estabelecer um conflito que influencia significativamente a sociedade em que Coubertin viveu: a disputa entre França e Prússia.
Entre os anos 1860 e 1870, o Segundo Império vinha enfrentando um desgaste político, e a Prússia, estado alemão que buscava a unificação da Alemanha, via um conflito contra os franceses como catalisador interessante para atingir esse fim.
Os conflitos entre prussianos e franceses escancararam a fragilidade do poderio militar francês durante o Segundo Império. Em setembro de 1870, o imperador Napoleão III foi rendido pela Prússia e se tornou prisioneiro de guerra, com a queda do Segundo Império ocorrendo imediatamente. O trauma da Guerra Franco-Prussiana marcou a geração de Pierre de Coubertin durante anos após o conflito.

Após a prisão de Napoleão III, a Terceira República foi instituída na França, que se estabeleceu em um contexto onde o sentimento francês era de derrota, fraqueza, humilhação e luto por conta da guerra. Entretanto, com o tempo, o regime republicano se restabeleceu e trouxe mudanças profundas na sociedade francesa, inclusive no âmbito educacional.
Pierre de Coubertin cresceu e se desenvolveu juntamente com o amadurecimento da Terceira República francesa, bem como com um sentimento de que era necessário reerguer a França após a derrota. A educação era vista por Coubertin como uma possível ferramenta para essa reestruturação do país e para o seu desenvolvimento, possibilitando o aprimoramento moral e físico dos franceses, que auxiliaria na superação do revés sofrido.
Ainda que tenha vindo de uma família nobre, Coubertin acreditava no potencial do regime republicano e que uma forma de educação renovadora deveria ser privilegiada, mirando o desenvolvimento de uma população autônoma, disciplinada e temperada.
A instituição e o estabelecimento da Terceira República, bem como a derrota na Guerra-Franco Prussiana, influenciaram o contexto educacional francês na época. A gestão republicana vinha operando reformas interessantes, como as leis de Jules Ferry, em 1881 e 1882, que advogavam em prol da expansão da educação pública de qualidade e que fosse laica. Entretanto, essas reformas se ligavam mais fortemente à educação primária, atrelada aos anos iniciais de formação. A educação secundária permanecia atravessada por uma visão intelectualista e enciclopédica.
A educação francesa, nessa época, ainda enfrentava a problemática da excessiva exposição a informações para que seus estudantes pudessem ser aprovados em determinados processos seletivos para seguirem carreiras administrativas ou militares. Os educadores críticos da época apontavam para a necessidade de uma educação que não se centrasse no excesso de absorção de informações, mas sim no desenvolvimento humano a partir da formação de sujeitos autônomos, livres e com maior potencial de desenvolvimento reflexivo. Pierre de Coubertin era um destes educadores críticos ao sistema educacional francês.
Ademais, as problemáticas como o ensino exaustivo, que sobrecarregou os estudantes franceses e atrapalhava seu desenvolvimento intelectual (especialmente devido ao excesso de acesso à informação e necessidade de memorização), as estruturas físicas das escolas que isolavam os estudantes de contato com a natureza, com a luz do sol e com o ar fresco, e o regime de controle e apatia sobre as expressões de comportamento dos estudantes, eram problemas dos sistemas educacionais franceses na segunda metade do século XIX.

Coubertin estava insatisfeito com o excesso de conhecimento que era depositado sobre os estudantes franceses, o que, para ele, suprimiu as suas energias físicas e morais. Ele ressaltava que existia uma diferença entre instrução, excessivamente focada na absorção de informações, e educação voltada para o desenvolvimento reflexivo, para a elevação da alma e para a educação moral.
Em meio a todo esse contexto, Pierre de Coubertin recusou seguir carreira militar ou política e decidiu dedicar sua vida à educação e à juventude, acreditando que seria um vanguardista que romperia com estruturas e modelos tradicionais. Ele visava um futuro fundamentado na democracia republicana e na formação de uma população preparada por meio da educação.
Na matéria da próxima semana, para dar continuidade ao nosso editorial, exploraremos com maior profundidade as perspectivas de Coubertin sobre educação e formação humana. Destacaremos perspectivas e ideais pessoais do autor, bem como suas críticas sobre a educação voltada à instrução e ao excesso de informações, a força autoritária e a vigilância sobre os estudantes, suas percepções sobre o potencial do modelo educacional britânico e a necessidade de reforma na França.
Convidamos você a continuar acompanhando o editorial para nos aprofundarmos em reflexões sobre Pierre de Coubertin, educação, o passado, o presente e o futuro.
