Hoje, 15 de setembro, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português.
A seguir, o décimo terceiro texto, France et Italie (França e Itália), de 21 de março de 1900.

FRANÇA E ITÁLIA
Os que trabalham para estabelecer entre a França e a Itália um modus vivendi tolerável realizam uma obra excelente, mas creio que os que visam além disso perdem o seu tempo. Entre os dois países há mais que um fosso, mais que os Alpes: há um mal-entendido. Um fosso é, em geral, menos difícil e mais rápido de preencher do que um mal-entendido de dissipar.
Os italianos já não se lembram do que se passou outrora em Plombières; os franceses, por sua vez, não se dão bem conta do que aconteceu em Villafranca. Como poderiam entender-se?
Creio, sem dificuldade, que sem Napoleão III, e mesmo sem Cavour, a unidade italiana se teria selado um dia, mas não em proveito da realeza piemontesa; e, ademais, depois de quantos labores, de quantos reveses, de quanto sangue derramado! O imperador dos franceses foi a boa fada todo-poderosa, saída de um alçapão imprevisto, que realizou com três toques de varinha um sonho maravilhoso.
Só que o sonho foi interrompido bruscamente; a boa fada faltou às suas promessas, reclamou um preço bem alto pelo que já havia dado e deixou-se arrancar o resto pouco a pouco, a contragosto e não sem demonstrar muita má-fé.
Ponham-se no ponto de vista italiano e encarem os fatos, não com a paixão com que se deviam encarar na Península no dia seguinte a Villafranca, sob o golpe da decepção dolorosa causada por uma paz prematura — mas como pode encará-los um italiano de hoje, instruído, moderado, desejoso de ser equânime em seus juízos. Ele não ignora que Napoleão III mandou morrer na Crimeia perto de cem mil franceses para não tirar dessa guerra sangrenta senão um benefício moral, ao passo que a campanha da Itália, que lhe custou dez vezes menos homens, lhe rendeu Nice e Saboia; será que os seus súditos, que aceitaram Sebastopolsem se queixar muito, têm o direito de reclamar por Solferino? Eis, sem dúvida, um raciocínio inatacável.
Mas transportem-se agora para o cérebro de um francês que vê que, ao seguir essa política, Napoleão virou as costas às tradições mais antigas e traiu os interesses mais imediatos de seu povo. Constatemos, aliás, o que ela produziu, todas as consequências lógicas que dela decorreram: a união forçada da Itália regenerada com a Alemanha unificada, a França diminuída por essa temível vizinhança, e vendo arrancar-se brutalmente de seu solo esta Alsácia e esta Lorena, que valem oito Nices e cinco Saboias.
É impossível conciliar dois pontos de vista que se opõem quando ambos são justos, impossível fazer dois indivíduos ouvirem a razão quando discutem e cada um tem justas queixas a formular contra o seu rival.
Que entre os governos se troquem gentilezas, que o comércio se desenvolva, que as esquadras se visitem, tudo isso é muito bom. Que se deixe de recriminar inutilmente sobre o passado, será ainda melhor; mas esperar lançar os dois povos nos braços um do outro em nome de uma consanguinidade discutível e, de qualquer forma, pouco eficaz — isso sim é a mais pura utopia!
E se, por mim, admito perfeitamente bem que a Itália seja aliada da Alemanha e faça olhinhos para a Inglaterra, acharia igualmente natural que, em Nice e na Tunísia, os costumes italianófilos fossem suprimidos por funcionários de mão firme, e que, uma vez tomado um gueto, se mostrasse menos pressa em renunciar a ele.
Pierre de Coubertin, 21 de março de 1900.
Notas do historiador:
- modus vivendi (locução latina): acordo prático e provisório entre partes em desacordo, que permite a convivência sem resolver as divergências de fundo.
- Plombières: refere-se ao encontro secreto de Plombières-les-Bains, ocorrido em julho de 1858, entre Napoleão III e o conde de Cavour, no qual os dois selaram uma aliança contra a Áustria em troca da cessão de Nice e Saboia à França — acordo que preparou o caminho para a unificação italiana.
- Villafranca: o Armistício de Villafranca (11 de julho de 1859), pelo qual Napoleão III pôs fim precipitadamente à guerra contra a Áustria sem consultar seu aliado Cavour, frustrando as aspirações italianas de unificação completa e sendo percebido na Itália como uma traição francesa.
- Cavour: Camillo Benso, conde de Cavour (1810-1861), primeiro-ministro do Reino da Sardenha-Piemonte e um dos principais artífices da unificação italiana.
- realeza piemontesa: a Casa de Saboia, dinastia reinante no Reino da Sardenha-Piemonte, que viria a se tornar a família real do Reino da Itália unificado.
- Guerra da Crimeia (1853-1856): conflito entre o Império Russo e uma coalizão que incluía França, Reino Unido, Império Otomano e o Reino da Sardenha-Piemonte.
- Sebastopol: cidade portuária da Crimeia cujo cerco prolongado (1854-1855) foi o episódio mais sangrento da Guerra da Crimeia para as tropas francesas.
- Solferino: batalha travada em 24 de junho de 1859 entre as forças franco-piemontesas e o Império Austríaco, marcada por perdas humanas extremamente elevadas; o horror dos feridos abandonados no campo inspirou Henry Dunant a fundar o que se tornaria a Cruz Vermelha.
- Alsácia e Lorena: regiões cedidas pela França ao recém-proclamado Império Alemão após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), perda territorial que alimentou o revanchismo francês até a Primeira Guerra Mundial.
- Aliança da Itália com a Alemanha: referência à Tríplice Aliança (1882), pacto que unia a Itália, a Alemanha e o Império Austro-Húngaro.
- Tunísia: protetorado francês estabelecido em 1881, à época com importante comunidade de imigrantes italianos, cuja presença gerava tensões diplomáticas entre Paris e Roma.
