Hoje, 07 de julho, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português graças ao uso de Inteligência Artificial. Pela primeira vez em mais de cem anos, os 58 textos publicados no jornal belga L’Indépendance Belge, sob o título Lettres d’un Indépendant, estarão disponíveis para o público, graças à pesquisa do historiador e membro do CBPC Carlos Eugênio Negreiros.
A seguir, o terceiro texto, L’Autriche-Hongrie (Áustria-Hungria), de 26 de janeiro de 1900.

Áustria-Hungria
O capítulo da obra sobre O Futuro da Europa [l’Avenir de l’Europe] consagrado à Áustria-Hungria valeu à Indépendance belge e a mim mesmo um grande número de comunicações de [certo] interesse, mas nas quais busquei em vão um argumento suscetível de modificar minha opinião.
“A Áustria viverá, porque é indispensável à Europa” — eis, em resumo, a afirmação única em torno da qual se agrupam todos os austrófilos. Essa afirmação, não a discuto, ainda que houvesse, parece-me, uma resposta bastante decisiva a opor-lhe: pois a neutralidade, ou ao menos um papel defensivo, não cessou de complicar os problemas, de criar conflitos, de adiar soluções. Mas admitamos [texto incerto] que a Áustria seja necessária à Europa. Isso bastará para fazê-la durar? Vocês não nasceram ontem para crê-lo. Desde quando os povos possuem essa sabedoria de manter as barreiras que se opõem a seus próprios excessos, ou de erguer diques contra suas próprias paixões?
Sei muito bem que o rei da Prússia e seu governo não desejam de modo algum a entrada dos alemães da Áustria no seio germânico; mas sei também que não os repeliriam a canhonaços no dia em que estes quisessem nele entrar, porque o povo alemão, por inteiro, se revoltaria; e [texto incerto] é extremamente tentador ter para si toda a Europa central e desembocar no Adriático.
Mas, dir-me-ão vocês, há os eslovacos. Que querem que eles façam? [texto incerto — passagem de leitura difícil no original, aparentemente relativa ao direito dos eslovacos a reivindicar representação, ou o uso de sua própria língua]. Mas, dir-me-ão vocês ainda, os tchecos formarão então uma espécie de península no meio do oceano germânico. Que se quer que se faça quanto a isso? É a geografia que está em causa. Viverão o melhor que puderem e, espero, não tão mal; a Alemanha, desafogada pela saída para Trieste, será provavelmente menos ávida em [texto incerto: “demarcar”/”apertar”?] suas fronteiras.
E depois, mais uma vez, o que se pode fazer quanto a isso? A sorte da Áustria está nas mãos de seus súditos alemães. No dia em que estes quiserem reunir-se à Alemanha, nada no mundo poderá impedi-los — nem a Hungria, [texto incerto: trecho de sentido obscuro no original], nem sequer o nada, nem por um fenômeno ainda mais impossível, um fantasma flutuante tornado de repente uma realidade viva.
Então, a imaginação de vocês se exalta! Vocês entrevêem uma coalizão entre a Rússia, a França, a Itália, pois é absolutamente preciso que todo o mundo morra por essa Áustria — boa, quando muito, para alimentar a confusão que ela criou ao seu redor.
Eis as utopias! Eis exatamente o que são. A França, que só tem a ganhar em ver a Baviera católica e a Prússia protestante disputarem a condução da Alemanha unificada; — a Itália, para quem o Trentino vale mais que Trieste; — a Rússia, que já tem trabalho bastante nos braços — não cometerão semelhante loucura. E asseguro-lhes que o equilíbrio e o concerto europeus, que tantas vezes consistiram em cantar desafinado e em manter-se de cabeça para baixo, não sofrerão com isso tanto quanto vocês imaginam.
Mas eu lhes farei uma última concessão. Seja! Essa raivosa tríplice aliança se forma, a guerra estala. Depois de [texto incerto: “terem dominado”?] a Alemanha, espanquem-na, danifiquem suas finanças, atravanquem seu comércio — como diabo se arranjarão vocês para obrigá-la, contra sua vontade, a permanecer cindida em dois pedaços? Por que não me dizem logo que derrubarão os Hohenzollern e colocarão um czarevitch no trono imperial?
Tudo isso resulta no absurdo.
Nada de preciso nem de real [se extrai — texto incerto] dessa constatação de que os alemães da Áustria puxam a corda do sino que soará o dobre fúnebre do Império Habsburgo. A hora ainda não chegou. Talvez seu lealismo, tão compreensível enquanto vive Francisco José, se prolongue, no dia seguinte à sua morte, sobre o pobre pequeno fantoche, seu herdeiro… Mas então a comparação com o império vizinho será demasiado forte. A ampulheta se virará.
E se eu fosse um deles, sinto perfeitamente que, nesse dia, diria: Amém.
Pierre de Coubertin, 26 de janeiro de 1900.
Notas do historiador:
- giron germanique / seio germânico: expressão que designa a incorporação ao conjunto das nações de língua e cultura alemãs (à época, sobretudo ao Império Alemão sob os Hohenzollern). Coubertin especula sobre uma eventual anexação dos alemães da Áustria à Alemanha unificada.
- Slovaques / Tchèques (eslovacos / tchecos): povos eslavos sob domínio da coroa austro-húngara na época. A alusão aos tchecos formando uma “espécie de península no meio do oceano germânico” reflete a posição geográfica da Boêmia e da Morávia, cercadas por territórios de população majoritariamente germânica — imagem retórica recorrente na geopolítica do período para descrever enclaves étnicos.
- Trentin / Trieste (Trentino / Trieste): territórios então austríacos reivindicados pelo irredentismo italiano; Coubertin contrapõe as duas reivindicações para sugerir que a Itália, tendo de escolher, privilegiaria o Trentino (região de população majoritariamente italiana) a Trieste (porto estratégico, mas de composição populacional mais heterogênea).
- Hohenzollern: dinastia reinante na Prússia e no Império Alemão desde 1871 (então sob Guilherme II). A menção é irônica: Coubertin ridiculariza a ideia de uma coalizão europeia capaz de ir a ponto de depor a dinastia alemã.
- tzarévitch / czarevitch: título do herdeiro do trono imperial russo. A frase é igualmente irônica, sugerindo o absurdo de substituir a monarquia alemã por um príncipe russo.
- François-Joseph / Francisco José: Francisco José I (r. 1848–1916), imperador da Áustria e rei da Hungria à época da publicação. Coubertin especula sobre a fragilidade da legitimidade dinástica após sua morte, antecipando (com considerável perspicácia histórica) as tensões sucessórias que de fato viriam a marcar o fim do império em 1918.
- empire habsbourgeois / empire voisin (Império Habsburgo / império vizinho): “império vizinho” refere-se presumivelmente ao Império Otomano, cujo processo de desagregação (“o homem doente da Europa”) era, à época, lugar-comum da publicística europeia — Coubertin sugere que, à morte de Francisco José, o paralelo entre os dois impérios multiétnicos em decadência se tornaria incontornável.
