Hoje, 1º de setembro, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português.
A seguir, o décimo primeiro texto, Le jacobinisme (O jacobinismo), de 4 de março de 1900.

O JACOBINISMO
Sempre me maravilho com a persistência das manifestações do vírus jacobino entre os meus compatriotas. Já se passou um século desde que nele se inocularam e, no entanto, ali está ele, sempre, à flor da pele, revelando-se à menor ocasião. Em períodos de paz externa e interna, como o que atravessamos, reveste ao menos uma forma mais suave e mais anódina; traduz-se, então, pela inquietação dolorosa que sente cada cidadão ao constatar ao seu redor um modo de pensar diferente do seu. “Aonde vamos!”, exclama o francês com ar desolado… “Corremos para o abismo!”.
E por que se corre para o abismo?
Ah, meu Deus, pelas razões mais variadas: porque as congregações enredam o país numa teia de maquinações tenebrosas — porque a maçonaria reduziu à escravidão todo o partido republicano — porque um socialista se tornou ministro — porque hastearam uma bandeira vermelha na via pública — porque um bispo se dirigiu com pouca educação ao presidente do conselho — porque um documento confidencial foi entregue por um funcionário infiel…
Tudo isso é jacobinismo, isto é, o estado de espírito daqueles homens sinceros em suas aspirações e em seus entusiasmos, mas radicalmente limitados e ignorantes, em cujas mãos a Revolução caiu e que, por infelicidade, a maculariam em poucos anos aos pés do trono napoleônico, onde ela se ajoelhou devotamente. Ora, retomai a história, a longa e gloriosa história da França, e vereis que o espírito jacobino não é, de modo algum, francês. É um produto heterogêneo que o drama revolucionário e a epopeia imperial cristalizaram, e do qual se faz, tanto em nossa educação pública quanto em nossa educação privada, um uso desolador. Criado numa atmosfera jacobina por mestres que veneram a lógica e adoram o absoluto, o pequeno francês logo se deforma a ponto de ver, mais tarde, abismos ao fim de todo caminho que não seja aquele de sua escolha.
A lenda napoleônica, cujo culto, há oitenta anos, tanto nos custou materialmente, perdeu terreno; mas seria preciso agora que a lenda revolucionária, que paralisa todo progresso moral, também o perdesse. Seria preciso habituar-se a discutir com frieza a obra da Revolução, que conta erros colossais e absurdos sem nome. Seria preciso dissipar o mal-entendido que existe a esse respeito entre a França e as nações estrangeiras, e que as impede de se compreenderem e de se ajudarem.
[texto incerto — trecho irrecuperável devido a dano severo no documento original]
… Ao lado desses grandes movimentos, a [texto incerto] assemelha-se um pouco a um furacão que [texto incerto] muitas colheitas, quebrou muitos galhos de árvores e roubou muitas sementes.
Pierre de Coubertin, 4 de março de 1900.
Notas do historiador:
- Jacobinismo: corrente política nascida do Clube dos Jacobinos durante a Revolução Francesa (1789-1799), associada a um republicanismo radical, centralizador e doutrinário. Coubertin emprega o termo, ao longo do texto, num sentido ampliado, como sinônimo de um estado de espírito dogmático e intransigente que, a seu ver, persistiria na mentalidade política francesa muito além do episódio revolucionário propriamente dito.
- Congregações religiosas: ordens e institutos católicos, cuja atuação (sobretudo no ensino) era, na França de 1900, alvo de intensa controvérsia política, culminando na Lei de Associações de 1901, que restringiria seu funcionamento.
- Maçonaria: sociedade discreta de caráter filosófico e filantrópico, vista por setores católicos e conservadores franceses da época como uma influente rede de poder oculto, especialmente ligada aos governos republicanos e anticlericais da Terceira República.
- Presidente do Conselho (Président du Conseil): título do chefe de governo francês (equivalente a primeiro-ministro) sob a Terceira República.
- Lenda napoleônica: culto memorialístico e literário em torno da figura de Napoleão Bonaparte (1769-1821), que idealizava seu governo e seu legado militar; Coubertin a contrapõe aqui à “lenda revolucionária”, isto é, à idealização acrítica da Revolução Francesa.
