Há 89 anos, em 2 de setembro de 1937, morria em Genebra o barão Pierre de Coubertin, o homem que devolveu ao mundo moderno os Jogos Olímpicos. É normal lembrá-lo como um restaurador do passado, como o entusiasta que foi buscar na Grécia Antiga inspirações e tradições. Mas essa é só metade da história. Coubertin cultivava, ao mesmo tempo, duas paixões que pareciam apontar em direções opostas: uma pelo que já havia sido, outra pelo que ainda estava por vir.
A primeira dessas paixões ele mesmo nomeou: dizia-se “filoheleno” (do grego clássico φιλέλλην, philéllēn, “amigo dos helenos”), apaixonado pela história e pela cultura da Grécia Antiga. Coubertin não estava sozinho nisso. A Europa do fin-de-siècle vivia um filohelenismo difuso, que atravessava as artes, a arquitetura, o imaginário culto da época. Uma admiração generalizada pelo mundo grego que ajudou a criar o clima propício para que uma ideia como a do renascimento dos Jogos Olímpicos pudesse virar realidade.
Mas olhar para trás nunca foi, para Coubertin, um fim em si mesmo. “A humanidade deve recolher, na herança do passado, todas as forças suscetíveis de serem empregadas na construção do futuro”, escreveu ele em 1919, numa carta aos membros do COI. É essa frase que vira a chave do seu pensamento: o passado grego interessava a Coubertin como material de construção, não como objeto de nostalgia. Não à toa, ele mesmo advertia, ainda em 1906, que “o filohelenismo deve se voltar para o amanhã, e não para o ontem”.
A segunda paixão também tem nome e, como Coubertin gostava de neologismos (foi ele quem cunhou “Olimpismo”), talvez não seja exagero chamá-lo também de “melontófilo”: alguém apaixonado pelo futuro (do grego μέλλον, méllon, “o que está por vir”, “o porvir”; daí um possível μελλοντόφιλος, mellontóphilos). E esse futuro, em Coubertin, tem dois sentidos que caminham juntos: o futuro como tempo – o porvir da civilização, da paz, das instituições – e o futuro como juventude, a geração que ainda vai viver esse tempo.
No primeiro sentido, os Jogos Olímpicos como um projeto de futuro, Coubertin via no esporte internacional uma força concreta de aproximação entre os povos. Já em 1892, na conferência da Sorbonne em que lançou pela primeira vez publicamente a ideia dos Jogos, declarava: “Exportemos remadores, corredores, esgrimistas: eis o livre-comércio do futuro; e no dia em que ele for introduzido nos costumes da velha Europa, a causa da paz terá recebido um impulso novo e poderoso”. Décadas depois, a confiança permanecia intacta: “Vocês podem encarar o futuro com toda a segurança. A instituição mundial que edificamos está em condições de fazer frente a todas as eventualidades”, escreveu em 1925, referindo-se ao próprio Comitê Olímpico Internacional. E, no mesmo ano, resumia sua aposta mais ampla: “o futuro da civilização não repousa, neste momento, nem sobre bases políticas, nem sobre bases econômicas. Ele depende unicamente da orientação educativa que se delineará”.
Mas é no segundo sentido, o futuro como juventude, que talvez esteja o núcleo mais pessoal do projeto Olímpico de Coubertin. Não é por acaso que ele descrevia, em 1935, o jovem adulto como “uma soberba máquina cujas engrenagens estão todas montadas e que está pronta para entrar em pleno movimento”, e afirmava que era em honra dele, e por causa dele, que os Jogos deveriam existir. Aos jovens, diretamente, dizia em 1933: “mantenham-se bem firmes na sela, rapazes, avancem com ousadia através da nuvem, e não tenham medo. O futuro é de vocês”. E o mesmo endereçamento à juventude ultrapassava fronteiras: ao escrever sobre o Olimpismo em 1917, dedicava suas páginas “à intrépida juventude da América Latina”, convocando-a a se preparar, pela cultura física, para “o futuro esplendor” da região.
É essa dupla filiação — a de filoheleno e a de melontófilo — que talvez explique por que Coubertin insistiu, contra o ceticismo de muitos de seus contemporâneos, em ressuscitar uma tradição de dois mil anos. Não para viver no passado, mas para, a partir dele, dirigir-se a quem vinha depois. Quase cem anos após sua morte, a frase com que Coubertin encerrou um discurso em 1927 ainda soa mais como uma tarefa do que como uma lembrança: “o futuro depende de vocês”.
REFERÊNCIAS:
- 1892, 25 de novembro — Les exercices physiques dans le monde moderne. Conférence faite à la Sorbonne, 25 novembre 1892.
- 1896, novembro — The Olympic Games of 1896. In: The Century Illustrated Monthly Magazine, vol. LIII, nouvelle série, vol. XXXI, nov. 1896.
- 1906, abril — Le devoir d’un Philhellène. In: Revue Olympique, 6e année, avril 1906.
- 1917, dezembro — ¿Qué es el Olimpismo? Paris, Diciembre 1917.
- 1919, abril — Lettre No 2 à Messieurs les membres du CIO. Off-print, Lausanne, avril 1919.
- 1925, 29 de maio — Discours prononcé à l’ouverture des Congrès olympiques à l’hôtel de ville de Prague, le 29 mai 1925.
- 1925, julho — Circulaire aux membres du C.I.O. Lausanne, juillet 1925.
- 1927, 17 de abril — Olympie, 17 avril 1927.
- 1933, Discours de Monsieur le Baron de Coubertin prononcé au cours de la cérémonie en l’honneur de Monsieur le Baron de Coubertin à l’occasion de son 70e anniversaire.
- 1935, 4 de agosto — Les Assises philosophiques de l’Olympisme moderne. [The Philosophical Foundation of Modern Olympism.]
