Hoje, 30 de junho, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português graças ao uso de Inteligência Artificial. Pela primeira vez em mais de cem anos, os 58 textos publicados no jornal belga L’Indépendance Belge, sob o título Lettres d’un Indépendant, estarão disponíveis para o público, graças à pesquisa do historiador e membro do CBPC Carlos Eugênio Negreiros.
A seguir, o segundo texto, Stead et son mouvement pacifiste (Stead e seu movimento pacifista), de 24 de janeiro de 1900:

STEAD E SEU MOVIMENTO PACIFISTA
Pronunciei, outro dia, o nome do Sr. Stead. É doravante um nome bem conhecido; a personagem, porém, ainda é insuficientemente [conhecida].
Faz agora cerca de quatorze meses — eu estava em Cannes quando um telegrama me chegou de Roma. Stead anunciava-se. Havíamos frequentemente nos correspondido, mas eu tinha a impressão de nunca o ter visto. Ele dizia, em seu telegrama, querer tratar de um assunto urgente; cria que eu poderia ajudá-lo. Ponto. Ele chegou como um golpe de vento, cinquenta minutos antes do trem, com simpatia de entusiasta, à queima-roupa, tratando de detalhes das recepções do Cairo, partindo em seguida para circunstâncias pessoais — é verdade, para um homem que vinha de Livádia.
Foi na sequência de duas longas conversações com o Imperador Nicolau II que ele havia concebido seu curioso projeto da “vague pacifique” [vaga pacífica]. E ao pronunciar a palavra paix [paz], ele fazia um gesto com a mão ao mesmo tempo grandioso e simples, que exprimia sua vontade e sua certeza. A ideia havia sido lançada em seu cérebro, e eu via que ela lá tomava bem seu lugar.
Sua vague devia se formar na Inglaterra. O ponto de partida seria a casa dele. Ele acreditava poder chegar, por iniciativas pessoais, a reunir tudo. Escolher-se-ia um grupo de cidadãos ingleses tão “representativo” quanto possível, e eles seriam postos a caminho, com as passagens pagas. Em Paris, encontrariam a delegação francesa — à qual eu estaria pronto a prestar todos os meus cuidados. Em seguida, os franco-ingleses se dividiriam, passariam por Roma e por Atenas para ali colher os membros suíços e italianos. Todos se reencontrariam em Viena para marchar sobre Berlim. No intervalo, os viajantes ingleses, holandeses, escandinavos, belgas, americanos teriam se juntado à “vague”, agora numerosa e livre de rolar majestosamente pelas ruas europeias para se depor aos pés do trono imperial, à beira do qual se abriria a Conferência com as homenagens e os encorajamentos do universo civilizado.
Respondi a Stead pelo nome que, conhecido no momento de sua partida para a Crimeia, havia tomado durante sua viagem uma reputação notória de [agente?] da Ação… Disse-lhe que, seis meses antes, seu generoso projeto me teria parecido realizável, mas que, nesse momento, a “vague” partida de Londres teria poucas chances de excitar o entusiasmo não somente em Paris, mas nas outras capitais — pois uma Inglaterra nova vinha de se revelar, arrogante, ruidosa e brutal, que sabia fazer surgir em poucos dias nos sepulcros todas as velhas anglofobias continentais, todas as querelas e rancores enterrados. Acrescentei, por minha parte, que não via ali uma crise passageira e que guardava confiança, apesar de tudo, na pátria de Gladstone — mas que aquele momento estava mal escolhido para propor à França uma colaboração… pacífica.
Através da fumaça de um charuto, vejo daqui o olhar de Stead — um olhar de gelo e de brasa ao mesmo tempo —, não sobre a Abissínia, na qual ele não acreditava de fato, mas sobre Livádia, de onde lhe pareciam vir sempre as forças de uma imperiosidade [imperial?] resolvida em trabalhar pela paz dos homens. Recordo-me de que, naquele instante, um pensamento atravessou meu espírito:
“O que vai fazer esse homem”, dizia eu a mim mesmo, “quando, de volta ao seu lar, a fria realidade cair sobre o seu entusiasmo?”
Eis o que ele fez. Ele se pôs ao trabalho. Adeus à Rússia, ao Czar, à fraternidade e à “vague pacifique”. Para realizar tudo isso, hoje existe um dever mais premente: combater contra seu próprio país e conduzi-lo em direção ao seu verdadeiro destino.
Que é preciso fazer para evitar a guerra?
— Quando? — Para todos, evidentemente. — Poderia chegar após termos atravessado [este ano de] 1901.
— Como? — Denunciando publicamente nossa falta. Eis o periódico que aparece toda semana — War against war [A guerra contra a guerra] —, o pequeno folheto político que Stead tem editado há cinco meses para seus leitores. Eu o leio com efeito, às vezes espantoso de verve e de espírito, mas sóbrio em seus procedimentos, equânime em sua estratégia. Nem uma mentira oficial que, por mais furiosamente desmentida que fosse, não seja sublinhada; nem uma incoerência que não seja assinalada; nem uma nota que não seja relevada. Todas as armas são empregadas, desde os textos bíblicos até as caricaturas mais mordazes. Pela música após a pena, enorme luta, ele mesmo aclama e vocifera. Percorre a Inglaterra, inesgotável.
Lendo suas páginas inflamadas, no dia a dia, eu mesmo me perguntei se esse homem extraordinário, à força de procurar o dever, não viria a se enganar — e se, à força de ver claramente o bem, não lhe faltaria alguma vez. Será que é permitido tratar assim a própria pátria quando o sangue de seus filhos corre ao longe, mesmo por uma causa medíocre? Se algum dia um francês se permitisse, em caso semelhante, agir da mesma forma, a turba o açoitaria, e o júri convocado para julgar os assassinos faria prova de perfeita indulgência para com eles.
Pois bem! Essa impressão não subsiste. Desafio qualquer um que leia War against war a dizer que o Sr. Stead não ama seu país.
Pierre de Coubertin, 24 de janeiro de 1900.
Nota do historiador: O texto apresenta degradação significativa no suporte original, com vários trechos de leitura incerta. Passagens de reconstituição difícil foram traduzidas a partir da combinação do OCR extraído e da imagem do documento; os casos de maior ambiguidade foram mantidos com [colchetes]. O termo “vague pacifique” foi mantido em francês na primeira ocorrência, com tradução entre colchetes, por ser expressão técnica do projeto de Stead. “Livádia” refere-se ao palácio imperial russo na Crimeia onde Nicolau II recebia audiências.
