Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin lança série inédita de textos do fundador do Olimpismo moderno.
Hoje, 23 de junho, Dia Olímpico, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá início a um projeto que necessitava das condições certas para se tornar realidade: a publicação de 58 textos de Pierre de Coubertin escritos entre 1900 e 1903 para o jornal belga L’Indépendance Belge, sob o título Lettres d’un Indépendant.
São textos que permaneceram, por mais de um século, fora do alcance dos pesquisadores do Olimpismo de língua portuguesa devido à deterioração do papel, que os tornara praticamente ilegíveis.
O que torna esse momento possível é uma mudança nas ferramentas disponíveis para o trabalho com documentos históricos deteriorados. Graças ao uso de Inteligência Artificial aplicada ao tratamento de imagens, esses textos voltaram a ser legíveis. O projeto Coubertin: restaurado(r) é coordenado pelo historiador Carlos Eugênio Negreiros, membro do Comitê, responsável pela localização do corpus e divulgação ao público.
A escolha do Dia Olímpico como data de lançamento não é apenas simbólica. Ela reflete também uma concepção de trabalho: o Olimpismo como campo de pesquisa que permanece aberto e que se reconfigura à medida que suas fontes primárias se tornam mais acessíveis e mais bem compreendidas. Publicar Coubertin em português é um ato de pesquisa, mas também de responsabilidade com a comunidade acadêmica latino-americana da área de Estudos Olímpicos.
A partir do lançamento, um texto restaurado será publicado toda terça-feira, no site do Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin. A série está prevista para se estender por pouco mais de um ano; tempo suficiente, talvez, para que Coubertin volte a surpreender até quem pensava já conhecê-lo bem.
A seguir, o primeiro texto, LA PAIX (A Paz), de 14 de janeiro de 1900:

A PAZ
O dia de amanhã pode dar toda a razão à paz; o século vindouro lhe dará razão” — escrevia recentemente um de meus amigos. Aceitemos o augúrio, mas não pensemos que a paz se estabelecerá sozinha no mundo, como uma pessoa que aluga um apartamento segundo seu gosto, instala-se nele com a intenção de encerrar ali sua existência.
Para fixar essa grande intermitência, é preciso trabalhar e trabalhar duro. Animadas por um sentimento generoso, as sociedades pacifistas já fizeram muito trabalho, mas pergunto-me se elas escolheram o melhor método.
Há dois. Um consiste em escrever Paz com P maiúsculo e difundir ao longe a ideia pacifista em toda a sua amplitude; ele consiste em dizer aos homens: vós acreditastes, sob a fé de escritores ignorantes e segundo a experiência de um passado bárbaro, que a guerra era uma das características necessárias da humanidade; vós estáveis enganados: é possível dissipar esse pesadelo de vossos sonhos; um pouco de vontade e essa fé bastará. A guerra tornar-se-á cada vez mais rara e acabará por desaparecer completamente. Uni-vos, ouvi-vos, proclamai a arbitragem facultativa primeiro e em seguida obrigatória: esquecei vossas querelas, dai as mãos uns aos outros… A Paz virá aos homens de boa vontade como lhes foi prometida, há quase dois mil anos, na planície de Belém.
O inconveniente dessa nobre esperança é que muitas pessoas não conseguem acreditar nela e se vão desanimadas, porque, pensam elas, “é belo demais para ser verdade”. Elas dirigem de bom grado os olhos para um horizonte mais próximo, mas esse, decididamente, é demasiado próximo, demasiado impreciso: e elas se vão engrossar a tropa dos incrédulos, trazendo à inércia esse poderoso reforço de um ceticismo que quase abalou e que não o fez. Além disso, é de temer que os irônicos, sempre sarcásticos e mordazes, não venham derramar sobre os esforços [ilegível] sem dúvida, se tendes alguns cabelos brancos, um pouco de filosofia na alma ou muitas viagens atrás de vós, pouco vos importa que o Imperador da Rússia tenha transferido sua conferência à Haia, que as potências, aceitando seu convite, tenham formulado reservas, que a Entente não tenha podido fazer-se sobre os pontos mais importantes e que uma guerra iníqua, precedida de uma recusa de arbitragem, tenha sido declarada no dia seguinte ao encerramento por um dos governos representados na Conferência. Dir-vos-eis que “São Pedro de Roma não foi feito em um dia” e que o fato capital, aquele que domina e que permanece, é a própria convocação e a reunião de tal assembleia.
Isso é verdade para o espírito, mas não é a elite que decidirá a paz; e na multidão, acreditai-me, esses fatos acessórios causaram mais decepções do que o fato capital suscitou esperanças.
Resta o outro método, que consiste em deixar de lado princípios e teorias para se ater à prática… A guerra, nos dias de hoje, não mais eclode de improviso. Haverá — o que Deus não permita! — sobre um trono europeu algum príncipe suficientemente impiedoso para desencadeá-la por capricho; ele não saberia fazê-lo sem comprometer o sucesso de suas armas e arriscar sua coroa. 1866 e 1870 foram prelúdios de longa mão e, desde então, a ciência veio complicar ainda mais as engrenagens da organização militar. Pode-se agir sobre essa situação, ela permite ver os conflitos vir.
Por que as Sociedades da Paz não exercem o papel dos bureaux meteorológicos que anunciam a tempestade, com essa diferença de que ao anunciar a tempestade não se limitariam somente a permitir aos homens preparem-se para sofrê-la, mas seria muitas vezes possível desviá-la e dispersá-la. Nos últimos anos, era possível perceber que a agitação da Espanha preparava o ataque a Cuba, que os tratados inexecutados e os massacres impunes exasperariam a Grécia, que a lentidão em conceder reformas fazia nascer na Inglaterra suspeitas culposas sobre o Transvaal.
Seria, pois, tão difícil levar ao conhecimento do público os fatos análogos? Que movimento de opinião não seria assim determinado? Estou certo de que para tal empreendimento se encontraria imediatamente dinheiro. Somente, seria preciso mais audácia na execução; escrever não bastaria; seria preciso recorrer à imprensa, à afixação, à caricatura ínfima, enfim, em uma palavra, fazer o que faz W. Stead, conduzindo em seu surpreendente jornal War against War.
O papel das Faculdades de toda a Alemanha cresceria com o temor que sua ação inspiraria. E antes de tudo, isso valeria mais do que voar placidamente as protestações contra o fato consumado… sobretudo se elas devem assemelhar-se à ordem do dia publicada recentemente por uma sociedade alemã e que começava assim: “Considerando que as Repúblicas Bôer, Alemanha do Sul da África…”. Então os holandeses são os pan-germânicos agora?
“Considerando que as Repúblicas Bôer, Alemanha do Sul da África…”. Então os holandeses são os pan-germânicos agora?
Como encontrais vós essa Sociedade da Paz que depende em seus artigos da ordem do dia dos termos da guerra…
Pierre de Coubertin, 14 de janeiro de 1900.
