Hoje, 18 de agosto, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português.
A seguir, o nono texto, La Suède et la Norwège (A Suécia e a Noruega), de 19 de fevereiro de 1900.

A SUÉCIA E A NORUEGA
Quando o rei da Suécia, em seu palácio de Estocolmo, de pé sobre seu trono, cercado de sua corte e revestido de seu traje de gala, procede com grande pompa à abertura de seu ídolo, o Parlamento sueco, ele se dirige à estação, sobe no trem, troca de trem na fronteira e, tornado rei da Noruega, chega a Christiania para inaugurar, de sobrecasaca e sentado numa simples poltrona, os trabalhos de sua turbulenta Câmara norueguesa.
Esse compromisso é querido pelos dois povos, que o inauguraram com prazer, como se sentissem uma satisfação íntima em erguer entre si uma fronteira mais intransponível do que as montanhas que os separam: a que consiste em tendências contrárias, hábitos opostos, uma maneira diferente de sentir e de agir… e isso é excessivamente pueril e profundamente aflitivo para todos os amigos dos escandinavos, ver essa Suécia e essa Noruega entregando-se assim a um pequeno jogo de decadência, quando, unindo sua robustez, suas energias serenas e seu valor, elas teriam podido sem dúvida poupar, ontem a Schleswig, hoje à Finlândia, um tratamento iníquo. O escandinavismo é uma força que não apenas o ignora, como trabalha para aniquilá-lo.
A primeira culpa é dos suecos; a segunda, dos noruegueses.
Os suecos consideraram, durante 80 anos, a Noruega como um país conquistado. A Noruega jamais foi conquistada, e pode-se acrescentar que jamais o será. Por muito tempo, ela conteve a expressão do descontentamento que lhe causavam os procedimentos de sua vizinha e aliada. Para infelicidade da paz, os noruegueses possuem uma capital que não é proporcional a seu país. O país é pouco povoado; Christiania é uma grande cidade. Christiania desempenhou, assim, na querela, o papel de um microfone. Ali, tudo veio a repercutir e a se amplificar. Formou-se assim essa agitação que ultrapassou todos os limites, a ponto de se chegar, nos dias de grande querela, a pronunciar as palavras “separação necessária” e “guerra possível”.
E é ainda uma das anomalias da situação ver Oscar II presidir sucessivamente as manobras anuais de dois exércitos que o reconhecem, cada um, como seu chefe, e que se preparam a sangue-frio para uma luta armada.
Agora que o amor-próprio nacional dos noruegueses recebeu satisfações importantes, seria tempo de eles perceberem que correm para o abismo. A Suécia, diminuída pela dissolução da união, nem por isso deixará de ser livre e autônoma. A Noruega, separada dela, seria, dentro de vinte anos, uma humilde dependência da Inglaterra. E quanto à Dinamarca, ela correria o risco, como se diz vulgarmente, de “pagar os pratos quebrados”.
Eis, por minha fé, para a nobre raça escandinava, uma perspectiva indigna de seu orgulhoso passado!
Pierre de Coubertin, 19 de fevereiro de 1900.
Notas do historiador:
- Christiania: nome oficial da cidade de Oslo, capital da Noruega, entre 1624 e 1925.
- Schleswig (Eslesvico): ducado disputado entre a Dinamarca e os Estados alemães, anexado pela Prússia e pela Áustria após a Segunda Guerra de Schleswig (1864).
- Neste período, a Finlândia era um grão-ducado autônomo sob soberania russa. Desde o Manifesto de Fevereiro de 1899, do czar Nicolau II, sofria uma política de russificação que restringia suas instituições e liberdades tradicionais — contexto que Coubertin evoca aqui.
- Escandinavismo: movimento político e cultural do século XIX que defendia a aproximação — e, para os mais radicais, a união política — dos povos e reinos escandinavos (Suécia, Noruega e Dinamarca).
- Oscar II (1829–1907): rei da Suécia e da Noruega desde 1872, países unidos por união pessoal (mesmo monarca, governos e parlamentos distintos).
- A União Sueco-Norueguesa unia as duas coroas sob o mesmo rei desde 1814. As tensões descritas neste artigo culminariam na dissolução pacífica da união em 1905, cinco anos após a publicação deste texto.
