Hoje, 08 de setembro, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português.
A seguir, o décimo segundo texto, Une lettre de Sienkiewicz (Uma carta de Sienkiewicz ), de 14 de março de 1900.

UMA CARTA DE SIENKIEWIEZ
Publicou-se uma carta do grande escritor polonês Sienkiewicz, que chegou bem a propósito.
Uma senhora distinta e generosa, muito conhecida no mundo dos filantropos, havia pedido a Sienkiewicz que apusesse sua assinatura ao pé de uma dessas petições que circulam pela Europa em favor dos bôeres. Nelas se apela a todos os sentimentos generosos. Quem, pois, se recusaria a participar de um movimento do qual há de nascer — ao menos é o que anunciam os prognósticos — a tão desejada intervenção? E Sienkiewicz respondeu com estas palavras tão simples: “Eu, polonês, não posso assinar, porque sou mais infeliz do que eles”.
Digo que essa carta chegou em boa hora, pois, ao ver o modo como a Europa inteira se ergueu contra o povo inglês, seria de crer estar diante de uma assembleia de jovens arminhos, comovidos com a traição inesperada de um dos seus, e a censurá-lo, com dor indignada, por haver manchado a brancura hereditária da espécie. Nesse papel, o Império russo, a Alemanha e a Áustria são prodigiosamente ridículos. Acaso a Rússia não subjuga a Finlândia? Acaso a Alemanha não oprime o Schleswig? Acaso a história austríaca não é atravessada de ponta a ponta por um rastro sangrento? Acaso todas as potências perderam a noção do silêncio que guardavam, ainda ontem, enquanto na Armênia se acendia uma tragédia?
Tirai, pois — diz o Evangelho —, tirai a trave que está em vosso olho antes de censurar em vosso vizinho o cisco que está no dele. Bem sei que a hipocrisia humana pratica, para fazer seu exame de consciência, há muito tempo, esse ofício com prudência, à luz de uma lanterna surda, que permite iluminar certos objetos e deixar os demais na sombra. Esquece-se o obscuro canto para onde são relegados os finlandeses, os do Schleswig, os poloneses, os armênios e outros fantasmas incômodos e, terminada a visita, faz-se o fariseu no Templo, agradecendo a Deus por haver-se dignado não vos fazer semelhantes aos demais homens.
Diante dessa bela satisfação, Sienkiewicz deixou cair uma gota de chumbo derretido, que causou uma ferida e ali ficou cravada. A seu modo, repetiu a palavra de [texto incerto], tão censurada, absurda se quiserem, mas generosa ainda assim, e útil.
É útil, com efeito, lembrar à Europa todas as infâmias que pesam sobre seu passado; e, quando falo de infâmias, não me refiro às conquistas — sempre as houve, infelizmente, e o espírito que as provoca ainda não deixou de soprar —, mas falo das crueldades sem nome, das barbáries atrozes, dos massacres sistemáticos que, até os nossos dias, seguiram com demasiada frequência as conquistas: refiro-me sobretudo ao papel de carrasco desempenhado pela Áustria na Itália e na Hungria, e pela Rússia na Polônia.
E, singular retorno das coisas humanas! Foi a Hungria que, por sua generosidade, consolidou, há quarenta anos, a cambaleante Áustria; amanhã será a Polônia que tirará a Rússia do impasse governamental a que sua corrupção a houver reduzido, e será o elemento bôer que constituirá, para a África do Sul, o cimento robusto da construção futura.
Pierre de Coubertin, 14 de março de 1900.
Notas do historiador:
- Henryk Sienkiewicz (1846-1916): romancista polonês, autor de Quo Vadis? (1896), agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1905. À época deste artigo (1900), a Polônia encontrava-se dividida entre os Impérios Russo, Alemão e Austro-Húngaro desde as partições do século XVIII, circunstância que explica a resposta irônica de Sienkiewicz citada adiante.
- Bôeres: colonos de origem neerlandesa estabelecidos na África do Sul, então em guerra contra o Império Britânico na chamada Segunda Guerra dos Bôeres (1899-1902), conflito que despertava grande simpatia na opinião pública da Europa continental.
- A ironia da resposta está em que Sienkiewicz, como polonês sob domínio estrangeiro havia mais de um século, recusa-se a assinar uma petição de solidariedade a outro povo oprimido alegando que a situação de seu próprio povo era ainda pior.
- O arminho, cuja pelagem branca simboliza tradicionalmente a pureza e a nobreza (inclusive em brasões heráldicos), é usado por Coubertin como metáfora irônica para as potências europeias escandalizadas com a conduta britânica na Guerra dos Bôeres.
- A Finlândia integrava o Império Russo como Grão-Ducado autônomo, mas vinha sofrendo, desde o Manifesto de Fevereiro de 1899, uma intensa política de russificação que restringia sua autonomia histórica.
- Schleswig (Eslésvico): região disputada entre a Dinamarca e os estados germânicos, anexada pela Prússia após a Segunda Guerra de Schleswig (1864); sua população dinamarquesa foi submetida a políticas de germanização.
- Referência aos massacres hamidianos (1894-1896), perpetrados contra a população armênia no Império Otomano sob o sultão Abdul Hamid II, que provocaram protestos na Europa, mas nenhuma intervenção efetiva das potências.
- Paráfrase de Mateus 7:3-5, passagem evangélica sobre a trave e o cisco, tradicionalmente empregada para denunciar a hipocrisia de quem julga os defeitos alheios sem reconhecer os próprios.
- Lanterna surda (ou “lanterna cega”): dispositivo de iluminação provido de anteparo móvel, que permite dirigir e ocultar o facho de luz a critério de quem a porta; empregada aqui como metáfora da hipocrisia seletiva.
- Alusão à parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18:9-14), em que o fariseu agradece a Deus por não ser “como os demais homens” — imagem clássica da autojustiça hipócrita.
- Referência ao Compromisso Austro-Húngaro de 1867 (Ausgleich), que reorganizou o Império Habsburgo em monarquia dual após a derrota austríaca na Guerra Austro-Prussiana de 1866, estabilizando o governo mediante a adesão húngara.
- Comentário premonitório de Coubertin: encerrada a Guerra dos Bôeres, bôeres e britânicos viriam de fato a integrar, em 1910, a União Sul-Africana.
