Hoje, 28 de julho, o Comitê Brasileiro Pierre de Coubertin dá prosseguimento à série semanal de textos inéditos de Pierre de Coubertin, traduzidos para o idioma português, e publicados no jornal belga L’Indépendance Belge, sob o título Lettres d’un Indépendant.
A seguir, o sexto texto, Les Française, arbitres de la paix (Os franceses, árbitros da paz), de 2 de fevereiro de 1900.

Os franceses, árbitros da paz – parte 2
…Mas essa política externa digna e sensata não agrada muito aos meus compatriotas. É muito curioso como os instintos deles diferem, conforme se trate do que se passa fora ou do que se passa dentro. Fora, eles sempre quereriam fatos precisos, vantagens práticas, imediatas. Dentro, jamais são tão felizes quanto quando lutam por fórmulas imprecisas.
Se seus vizinhos da Bélgica ou da Itália fossem às urnas divididos em dois partidos — um tendo por programa a única palavra “pátria!”, e o outro, este simples enunciado de princípios “a monarquia!” —, eles se dobrariam de rir e diriam: “Que autênticos tolos! De onde tiram eles que uma revolução ameaça atualmente o trono da Casa de Saboia ou o cetro de Coburgo, quando, afinal, a pátria não é propriedade indivisa de todos os seus filhos?”.
Essas reflexões não lhes ocorrem quando se trata de si mesmos. Consideram um traço de gênio a “Pátria francesa” do senhor Coppée e veem na “defesa da República” um argumento supremo nos lábios do senhor Waldeck-Rousseau. Essas tendências não datam de ontem. Acaba de se expulsar um agitador cuja eloquência, havia trinta anos, consistia em evocar, a torto e a direito, a imagem da pátria. Ele a concebia, aliás, com uma estreiteza que exasperava muitos patriotas. O general Boulanger prometeu, durante dois anos, “um governo reparador”, sem que jamais se pudesse conhecer o detalhe das reparações que pretendia empreender. Ele próprio nada sabia a respeito, aliás, e seus eleitores não se importavam em saber mais.
Quanto a Napoleão III, ele anunciava um “poder forte”, o que, no dia seguinte às desordens de 1848, podia ter certo atrativo. Quando acrescentou: “O Império é a paz”, essa dupla garantia permitiu-lhe cingir sem grande estorvo a coroa imperial.
Muita água correu, desde então, sob as pontes de Paris, e o povo francês sabe hoje muito bem o que ela vale; onde Napoleão III havia obtido êxito, Boulanger fracassou lamentavelmente, e Déroulède nada pôde tentar; pois seu célebre gesto na caserna de Reuilly, por culpado que fosse, não deixava de ser um gesto de aparato, sem força e sem persuasão. Mas o gosto pelas belas fórmulas permanece; já não se as segue mais até o fim; o ímpeto estanca na cancela; ainda assim, deixa-se arrebatar por esse mesmo ímpeto, por força do hábito.
Talvez esse jogo não seja muito perigoso, mas está repleto de inconvenientes. As ideias falsas, os grosseiros equívocos difundidos com o propósito de salvar a pátria — as medidas inoportunas e vexatórias tomadas sob o pretexto de defender a República — tudo isso adia, na mesma medida, as reformas úteis e as leis fecundas.
Pierre de Coubertin, 2 de fevereiro de 1900.
Notas do historiador:
-
- Esta carta abre com reticências porque dá continuidade direta ao texto anterior da série, publicado sob o mesmo título “Les Français, arbitres de la paix” [Os franceses, árbitros da paz].
- Casa de Saboia: dinastia que reinava sobre o Reino da Itália à época (o rei Humberto I, assassinado poucos meses depois, em julho de 1900, e sucedido por Vítor Emanuel III).
- Coburgo: referência à Casa de Saxe-Coburgo-Gota, dinastia da família real belga desde Leopoldo I; em 1900, o rei dos belgas era Leopoldo II.
- François Coppée (1842-1908): poeta e dramaturgo francês, membro da Académie française, figura nacionalista proeminente da época, associado à Ligue de la Patrie Française, fundada no fim de 1898 em reação ao caso Dreyfus.
- Pierre Waldeck-Rousseau (1846-1904): estadista francês, presidente do Conselho de Ministros da França entre 1899 e 1902; formou um “governo de defesa republicana” após o caso Dreyfus, reunindo republicanos, radicais e um ministro socialista contra as ameaças nacionalistas e antidreyfusardas.
- General Georges Boulanger (1837-1891): general e político francês que se tornou a figura central de um amplo movimento nacionalista e antiparlamentar (o “boulangismo”) no fim da década de 1880, visto por muitos como uma ameaça à Terceira República; fugiu da França em 1889, sob ameaça de prisão por conspiração, e suicidou-se em Bruxelas em 1891.
- Napoleão III (Luís Napoleão Bonaparte, 1808-1873): sobrinho de Napoleão I, eleito presidente da Segunda República Francesa em dezembro de 1848; proclamou-se Imperador dos Franceses em 1852, fundando o Segundo Império, que governou até sua derrota e queda em 1870.
- “Desordens de 1848”: referência à Revolução de fevereiro de 1848, que depôs o rei Luís Filipe e levou à proclamação da Segunda República Francesa.
- “O Império é a paz” (« L’Empire, c’est la paix »): frase célebre de discurso proferido por Luís Napoleão Bonaparte em Bordeaux, em outubro de 1852, pouco antes da proclamação do Segundo Império, destinada a tranquilizar as potências europeias receosas de um ressurgimento das ambições imperiais francesas.
- Paul Déroulède (1846-1914): líder da Ligue des Patriotes, expulso da França (exilado) após a tentativa fracassada do golpe “Caserna de Reuilly”.
- “Caserna de Reuilly“: referência ao episódio de 23 de fevereiro de 1899, quando, durante o cortejo fúnebre do presidente Félix Faure, Déroulède tentou convencer o general Roget e suas tropas, ao passarem, a marchar sobre o Palácio do Eliseu e depor o governo; a tentativa fracassou e resultou no julgamento e posterior exílio de Déroulède.
